Histórias

O adeus a Schiavon, as idas e vindas e o legado do RPM.

NOS TECLADOS: LUIZ SCHIAVON!!! Não faço nem ideia de quantas vezes esse grito ecoou pela nossa casa, através da vitrolinha Philips laranja que tínhamos na época. “Rádio Pirata” era a música que fechava o disco que se tornou o mais vendido da história do Rock Nacional, e num determinado trecho dela, Paulo Ricardo apresentava a banda, começando por ele: o maestro! O cara que foi o responsável pela sonoridade (então) inovadora na cena Rock da época no Brasil. O ano era 1986 e o RPM era chamado de “os Beatles brasileiros”, tamanho o fenômeno. Estádios e ginásios lotados por onde passavam.

Aquele foi meu primeiro disco de Rock, que ganhei de presente de dia das crianças naquele mesmo ano. E arrisco a dizer que talvez seja o disco que mais escutei na vida, a ponto de saber cada detalhe de cada música (inclusive o solo de teclado feito pelo Schiavon após a apresentação citada no início do texto). Durante meses eu escutei o Rádio Pirata Ao Vivo sem parar. Era como um vício.

Mas o RPM, muito antes de se tornar um fenômeno, começou a nascer quando Paulo Ricardo e Luiz Schiavon se conheceram em 1980. E foi justamente a música que os aproximou. Na época, uma namorada de Paulo era vizinha de Schiavon. Ouvindo os ensaios do então pianista clássico, que buscava um novo caminho na música, decidiram fazer uma visita. Paulo iniciava sua carreira como crítico musical. Schiavon tentava emplacar algo mais popular do que a música clássica. Conversando sobre música, Paulo foi convidado a integrar a banda de jazz fusion Aura. Foram três anos de ensaios e nada de shows, até que Schiavon se encantou pela música eletrônica e pelos sintetizadores. Paulo foi morar na Europa, primeiro na França e depois na Inglaterra, de onde escrevia para a revista Somtrês. As inúmeras correspondências trocadas entre os dois amigos impulsionaram a criação do RPM. Já na metade final de 1983, com Paulo de volta ao Brasil, a dupla se reuniu para colocar em prática o projeto de terem uma banda com uma sonoridade moderna, misturando Rock com música eletrônica, com muitos teclados e sintetizadores. Nascia o RPM.

Com Fernando Deluqui (ex-Gang 90 & As Absurdetes) na guitarra, e Júnior Moreno, um adolescente de 15 anos, na bateria, a banda começou a se apresentar nas casas noturnas de São Paulo. Júnior, por ser menor de idade, teve que deixar o grupo. Charles Gavin, que havia deixado o Ira!, foi convidado para assumir as baquetas. Com contrato com a Sony, gravaram o compacto que trazia “Louras Geladas” e “Revoluções por Minuto”, esta última censurada. “Louras Geladas” virou hit nas discotecas e danceterias, e o sucesso da música impulsionou a gravação do primeiro álbum da banda. Durante as gravações, Charles deixou o RPM para assumir o posto de baterista dos Titãs. Paulo Pagni, ou simplesmente PA, foi chamado para seu lugar. Uma curiosidade. Na capa do álbum Revoluções Por Minuto só aparecem os três integrantes, Paulo, Schiavon e Deluqui. As idas e vindas com vários bateristas, fez com a banda pensasse, inclusive, em usar bateria programada e não ter um músico fixo naquele posto. Após o término das gravações, PA, enfim, foi efetivado como membro do grupo.

Lançado em 1985, Revoluções Por Minuto chegou às lojas. Sucesso. “Olhar 43” estourou nas rádios de todo o país. A banda emplacou vários hits de sucesso e o disco alcançou a marca de 900 mil copias vendidas em pouco mais de um ano. “Rádio Pirata”, “Revoluções por Minuto”, “Louras Geladas”, “A Cruz e a Espada” e “Juvenilia” davam ao disco um certo ar de coletânea.

Tanto sucesso fez com que o grupo fechasse contrato com Manoel Poladian, um grande empresário do meio musical. Os shows, que antes eram em casas noturnas menores, passaram a ser realizados em ginásios e estádios, com mega produção, com direito a direção de Ney Matogrosso.

Sem novas músicas para gravação de um novo álbum de inéditas, surge a ideia do lançamento de um disco com material ao vivo, captado durante aquela turnê histórica. A essa altura Paulo Ricardo havia se transformado em sex symbol e a banda arrastava multidões de fãs por onde passava. Rádio Pirata Ao Vivo foi lançado em 1986, com registros de dois shows realizados em São Paulo. O disco trazia cinco músicas do álbum Revoluções Por Minuto, mais quatro novas canções, sendo duas delas covers: “London, London”, de Caetano Veloso, e “Flores Astrais”, dos Secos e Molhados. A inédita “Alvorada Voraz” logo se tornou hit de sucesso. Com 3,7 milhões de cópias vendidas, o disco se tornou, à época, o mais vendido da indústria fonográfica brasileira.

Mas nem tudo eram flores. Junto com sucesso vieram os problemas. Desentendimentos entre os quatro integrantes causados por questões financeiras e por desacordo na divisão de dinheiro, além do uso de drogas e investimentos fracassados, como a RPM Discos, selo criado para lançamento de novas bandas e artistas, fez com o grupo anunciasse a separação em agosto de 1987.

Ainda em 87 houve uma tentativa de reunião da banda para lançamento do álbum RPM, também conhecido como Quatro Coiotes. O disco não repete o sucesso dos antecessores, apesar dos hits “Quatro Coiotes” e “Um Caso de Amor Assim” terem se destacado e as vendagens terem alcançado 450 mil cópias, número excelente, mas considerado baixo para o padrão RPM. As brigas internas continuaram e a banda se desfez novamente.

Apesar de uma nova tentativa frustrada, sem o tecladista Luiz Schiavon e o baterista Paulo Pagni, Paulo Ricardo chegou a lançar mais um álbum, intitulado Paulo Ricardo e RPM, mas sem qualquer expressividade no cenário Rock da época. Paulo optou, então, por seguir em carreira solo.

Em 2002 a banda se reuniu novamente para a gravação de um especial para a MTV Brasil, que gerou o lançamento do CD e DVD MTV RPM 2002. O single “Vida Real” virou tema de abertura do reality show Big Brother Brasil, programa de enorme sucesso e audiência. O RPM voltava à mídia quase vinte anos depois de ter surgido em meados dos anos 80. Essa nova reunião culminou numa turnê nacional e, quando tudo caminhava para o lançamento de um novo álbum de inéditas, a banda anunciou uma nova separação. Especulações dizem que os demais integrantes descobriram que Paulo Ricardo havia registrado todos os direitos em seu nome, iniciando uma disputa judicial pelo nome/marca RPM.

Depois de idas e vindas a banda se reuniu para o lançamento de um novo álbum, Elektra, em 2011. Na sequência Paulo Ricardo, de novo em evidência, foi convidado para integrar o time de jurados em um programa da Rede Globo, lançando posteriormente um novo disco solo, chegando a anunciar que o RPM continuaria paralelamente, o que não aconteceu. Logo os outros três integrantes receberiam a notícia de que Paulo não teria interesse em permanecer com o grupo.

Schiavon, Deluqui e PA decidem continuar com o grupo, chamando para o lugar de Paulo o músico Dioy Pallone. Nessa nova formação os vocais passam ser divididos entre Deluqui e Dioy, e em 2018 chegam a lançar duas músicas nas plataformas digitais, “Ah! Onde Está Você?” e “Escravo da Estrada”. PA, com sérios problemas de saúde, é substituído pelo baterista de apoio Kiko Zara. Porém, após 34 dias de internação e em coma, aos 61 anos, é anunciada a morte de PA, vitima de broncopneumonia, em decorrência de uma fibrose pulmonar.

A banda permanece na estrada, mas os tempos são outros. Sem Paulo Ricardo e os shows em grandes palcos, a banda passa a se apresentar em lugares menores, muitas vezes em festas municipais e encontros de motociclistas. Bem diferente dos mega espetáculos, dos grandes shows e festivais em que viveram na fase áurea do grupo. Por vezes criticados por insistirem em permanecer na ativa, mesmo a duras penas, seus integrantes se mantiveram na estrada, batalhando por um lugar ao sol que nunca alcançaram novamente. Assim como algumas outras bandas de sua geração, permanecer na ativa é muito mais que buscar o sucesso, que estar em evidência. É uma necessidade vital. Parar, nesses casos, significa abandonar um sonho. Deixar de fazer o que mais gosta. Abortar a missão para a qual vieram ao mundo: fazer música.

Sem palavras pra descrever a tristeza que sinto com a partida do Mestre Luiz Schiavon. Um ícone do BRock, importantíssimo para o movimento revolucionário que transformou para sempre a música brasileira nos anos 80. Vai em paz Mestre!!! Seu legado é eterno. 🖤

ViniLcius Andrade

ViniLcius Andrade é um dos fundadores e administradores do perfil Discólatras, no Instagram, e canal Discólatras, no YouTube. Apaixonado por BRock e Clube da Esquina e que teve o RPM como sua primeira banda favorita.

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