Discos

O Samba pede passagem devagar, devagar, devagarinho

Hoje apresento minha segunda resenha sobre amigos e discos que marcaram nossas vidas.
E, após falar de Slayer, daremos uma reviravolta que, com certeza, passa dos 360 graus. O disco que escolhi pra essa ocasião é um dos grandes do samba nacional. O “Pequeno Burguês”, Martinho da Vila, e o disco “Maravilha de Cenário”.

O amigo homenageado dessa vez, na real, é meu primo, cujo nome é Marcelo, que após alguns anos assumiu a alcunha de Magrão. A escolha desse disco para o Marcelo por dois motivos principais: o primeiro é o fato de que o samba, durante um bom tempo, foi a trilha sonora principal de nossas vidas. Lembro muito bem e com um certo saudosismo que as festas de família sempre foram movidas a muita música, cerveja e bom papo, e nós crescemos ouvindo muito de Martinho da Vila, além de outros tantos bambas do samba como Originais do Samba, Bezerra da Silva, Beth Carvalho, Grupo Fundo de Quintal e outros muitos.

E o segundo motivo é um fato curioso que envolve esse disco e meu primo. A primeira faixa do disco, e aqui já começa também a minha resenha sobre, é o clássico “Aquarela Brasileira”, uma verdadeira declaração de amor ao território nacional e as tantas culturas presentes nas regiões desse vasto país como “o rio dos sambas e batucadas, dos malandros e mulatas”, “Bahia de Castro Alves, do Acarajé, das noites de mandinga do Candomblé”, isso só para citar uma pequena parte da letra.

Pois bem, meu primo, ao precisar fazer um texto na aula de geografia (se não me engano), copiou a letra dessa música e entregou como dever de casa. Óbvio que teve uma boa nota. Malandragem adquirida do samba? Talvez.

Maravilha de Cenário é o sétimo disco gravado por Martinho José Ferreira, natural de Duas Barras, Rio de Janeiro e que passou a usar o nome artístico de Martinho da Vila por conta das suas colaborações com a escola de samba de seu coração, a Unidos de Vila Isabel.

O disco de 1975 vem para suceder um outro grande sucesso de Martinho, seu disco homônimo de 1974 que trazia nada mais, nada menos que os hinos “Canta Canta, Minha Gente” e “Disritmia”. Aliás, desde seu primeiro disco, de 1969, Martinho já tinha nos apresentado grandes clássicos do samba como “Pequeno Burguês”, “Casa de Bamba”, “Quem é do Mar Não Enjoa”, isso só para citar algumas das muitas.

Ambos, tanto Maravilha de Cenário como o antecessor, têm a arte da capa do artista plástico Elifas Andreato, que também ilustrou a capa do disco de muitos outros artistas da MPB como Paulinho da Viola, Vinícius de Moraes, Elis Regina entre outros. E tratando das capas dos discos do Martinho da Vila, ambos são bem característicos e facilmente lembrados justamente pela beleza dessas capas.

A arte da capa de Maravilha de Cenário. Capa por Elifas Andreato

Já falamos sobre a faixa de abertura, que é Aquarela Brasileira. A segunda música do álbum tem um título que já apresenta o teor da música, “Você Não Passa de uma Mulher”. E posso dizer, ao ouvir hoje, quase 50 anos após seu lançamento, ela parece escrita como um protesto atual, totalmente legítimo. Mesmo com todos os adjetivos, todas as graduações e especializações, muitas vezes elas eram, e continuam sendo vistas “só” como uma mulher. Mas, mesmo com essa visão totalmente machista da época (será que só da época?), ele diz em uma das frases da música que não vive sem a mulher. Pois é, tanto lá como cá, muita coisa parece igual, amigo Martinho.

Um dos aspectos que podemos destacar nos discos de Martinho é que ele faz questão de flertar com outros ritmos e culturas regionais, além de manifestações de origens afro no geral. Um exemplo disso fica evidenciado na música “Lá na Roça (Mês de Maria)”, que tem a clara influência do Candomblé, com as batidas fortes e marcantes dos atabaques.

Na faixa “No Meu Tempo de Menino” temos mais alguns toques de outros ritmos misturados ao samba de Martinho da Vila. O toque do triângulo e da zabumba nos remete aos sons do norte e nordeste como a dança do coco de Alagoas e até ao carimbó do Pará.E ainda temos “O Hino dos Batutas de São José” que é uma homenagem ao frevo e ao Grupo dos Batutas de São José, criados em 1932 para brincar o carnaval de Recife. Aqui mais uma referência das influências musicais que aparecem em Maravilha de Cenário.

Mas claro, que o que impera nesse disco é o bom e já consagrado naquela época samba de Martinho. Músicas como “Andando de Banda”, “Maré Mansa”, “Verdade Verdadeira” apresentam o estilo único e quase “preguiçoso” de Martinho da Vila. Mas nem só de samba vive Maravilha de Cenário. “Se Algum Dia” mostra uma faceta mais MPB do cantor e que em nenhum momento destoa ou soa estranho, tanto no disco, como na carreira de Martinho. Uma batida quase de um bolero, com letra delicada e uma interpretação cheia de sentimento.

Bom, se o samba é o mais brasileiro dos ritmos, me atrevo a dizer que Maravilha de Cenário pode ser considerado entre um dos discos de samba que representa muito bem o nosso território nacional. E podemos afirmar, sem dúvida alguma, que pela voz tranquila e característica de Martinho da Vila, passa boa parte da história do nosso samba.

Salve a Mulatada Brasileira”!

Por hoje chega. Logo volto com a terceira e última resenha sobre amigos e música.

Bom divertimento sempre!

Ficha Técnica

Título: Maravilha de cenário
Lançamento: 13 de janeiro de 1975
Duração: 33:17
Produção: Rildo Hora
Gravadora: RCA Victor
Faixas: 12
Capa: Elifas Andreato

Rafael Mathias

Rafael Mathias, 44 anos, osasquense com orgulho, marido da Fernanda, pai da Sofia e do Joaquim, roqueiro por paixão, eclético por vocação! Trabalha na área de eventos como operador de teleprompter há 13 anos, inclusive operando para muitos cantores que vcs podem gostar e nem sabem que usam TP pra lembrar a letra.

2 thoughts on “O Samba pede passagem devagar, devagar, devagarinho

  • Marcelo (Magrão)

    Hahaha! Boa meu parceiro! Pegou do fundo do baú essa história! Fui até homenageado no mural da escola. Hahahaha. Obrigado pela homenagem e por me fazer relembrar essa história meu amigo, meu primo, meu irmão.

    Resposta

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