Histórias

O sorriso e a canção – a história de “O Girassol”, do Ira

O ano é 1994.

Você é um respeitado guitarrista da cena roqueira nacional. Mas, depois de três ótimos álbuns nos anos 80, sua banda lançou outros três discos com duas coisas em comum: vendagens cada vez menores e recepção da crítica cada vez pior.

Por conta disso, agora vocês estão sem gravadora. Pra piorar, sua namorada acabou de se mudar pra Espanha e você descobre que nos últimos meses ela estava tendo um caso com ninguém menos que o vocalista da sua banda.

Não sei o que você faria se estivesse vivendo nesse cenário. Edgard Scandurra, que passou por tudo isso em 1994, quase acabou com sua banda, o Ira!, quando soube que o vocalista Nasi estava envolvido com Beatriz, sua então namorada.

O que salvou o Ira foi uma excursão ao Japão em 1995, onde os ótimos e lotados shows e as experiências em outro país ajudaram a amenizar o clima entre os dois principais nomes da banda.

Scandurra ainda foi até a Espanha atrás da namorada, apenas pra descobrir que o relacionamento tinha mesmo chegado ao fim. Ele teve que ficar por mais alguns dias na Europa, até conseguir embarcar de volta pro Brasil. E ficou hospedado num quarto da casa que a agora ex-namorada dividia com alguns amigos.

Foi lá nessa casa, na Espanha, que o guitarrista compôs uma canção sobre esse término: “O Girassol”. No dia seguinte, outra música nasce inspirada naquela situação toda, “Eu Quero Sempre Mais”.

Em 1996 as duas faixas estavam em “7”, um álbum sem grandes vendagens, mas bem recebido por fãs e pela mídia. O próprio Scandurra cantou “O Girassol”. O guitarrista assumir os vocais não chegava a ser novidade – já havia ocorrido outras vezes. Mas aqui dá pra sentir um peso emotivo maior com a interpretação dada por ele, por razões óbvias.

Dali em diante as coisas foram numa curva ascendente pro Ira. O sucesso voltou, o público se renovou, a banda lançou discos de inéditas, de covers, ao vivo…e em 2004 se preparava pra fazer seu Acústico MTV.

O produtor do álbum seria Rick Bonadio, o maior nome do rock brasileiro naquela primeira década dos 2000. Apesar da chancela MTV, o acústico sairia pelo selo de Bonadio, o Arsenal Music, ligado à Sony.

O Ira teve liberdade pra escolher o repertório, podendo fugir das canções mais óbvias e focar em alguns lados B e outras menos conhecidas. Mas Bonadio queria um single, um carro-chefe e apostou justamente em “O Girassol”.

Aí surgiu um obstáculo: como o provável hit do disco seria cantado não pelo vocalista, que todos conheciam, mas pelo guitarrista? O produtor exigiu que Nasi cantasse “O Girassol”.

Vejam: a música foi feita por Scandurra quando estava no fundo do poço pelo término do namoro. Nasi teve um caso com essa garota enquanto ela estava namorando com Scandurra. E agora Bonadio queria que Nasi cantasse essa música.

O produtor não tinha ideia do peso daquela música pra Scandurra e Nasi. O triângulo amoroso, o quase fim da banda. Pra ele era só uma canção, uma grande canção e que seria um enorme sucesso. Por isso, precisava ser cantada pelo vocalista da banda.

Scandurra, com muito profissionalismo, acatou o produtor. Nasi cantou “O Girassol” no acústico. Dez anos depois, a banda quase implodiu novamente e praticamente pelo mesmo motivo. Mas, de novo foi “quase”. Não foi ainda desta vez que o Ira chegaria ao fim.

Rick Bonadio tinha razão sobre “O Girassol”. A música fez mesmo um sucesso absurdo. Aliás, todo o álbum foi muitíssimo bem recebido e se tornou o trabalho de maior sucesso comercial da banda, com 500 mil cópias vendidas.

Mas hoje, 19 anos depois do lançamento do acústico, “O Girassol” continua sendo não apenas um hit da banda, mas a música com mais reproduções no Spotify, acima de 36 milhões de plays. Na frente de “Tarde Vazia”, “Flores em Você” e de qualquer outra do Ira.

Deve ser agridoce pra Scandurra ver logo essa canção – e logo a versão do acústico – como o grande sucesso de sua banda. A “canção do amor perdido”, composta como foi, e onde foi. Não deixa de ser uma recompensa.

Filipe Silva

Metade do Prisioneiros do Rock

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