Discos

Os 20 anos de Sumday, da banda Grandaddy

Hoje, data em que escrevo essa resenha, Sumday, terceiro álbum de estúdio do Grandaddy, completa 20 anos.

SuMday, com um M no meio, é uma expressão curiosa, um neologismo que brinca, no idioma nativo, com “sunday” e com “someday”. Essa indefinição do que é, ou não é – o paradoxo – é o cerne da obra do Grandaddy.

As canções de Sumday parecem tratar das intenções de Jason Lytle, o gêniozinho por trás do Grandaddy, enquanto gênio pop, ou talvez da antítese disso. Sumday, com sua paisagem gélida e bucólica na capa, é um disco amargo, mal-humorado, reclamão, melancólico e misantropo. Tal qual seu criador. Tal qual uma foto em rede social, em que o sorriso branco-artificial das canções cheias de ‘blings e bloings’ provocam, e que escondem, na verdade, uma comovida tristeza inexplicada.

Todas as faixas de Sumday, se reduzidas ao básico, se apresentam com três, no máximo quatro acordes, que se resolvem na mais absoluta simetria. Mas Lytle, gosta de injetar camadas de complexidade, e vernizes expressionistas, muitas vezes tornando singelas e poéticas historietas bobas, como a de Jed (cantada no álbum anterior, The Sophtware Slump, de 1999. Jed era um ‘humanóide’, que acaba sendo traído pelos prazeres mundanos).

Now It’s On”, que abre os trabalhos, é assim: uma camada de samples e barulhos eletrônicos, uma outra camada crocante de guitarras ruidosas, uma cozinha inerente àquilo tudo e um claudicante Jason Lytle, com uma voz frágil que emula o mais amargurado dos Neil Youngs possíveis, em dúvida e/ou reclamando sobre uma possível exposição. Segue-se com “I’m on Standby”, uma das minhas favoritas do álbum, em que Lytle reafirma toda sua misantropia, sua inequação social. Uma possível negação ao sucesso. O mesmo vale para “The Go In The Go-for-it” e “The Group That Couldn’t Say”: apesar de metafóricas, a mensagem é clara – Lytle, ou o Grandaddy, não estavam dispostos a concessões comerciais. 

Já “Lost On Yer Merry Way” aborda os possíveis problemas (com P maiúsculo) que o artista poderia estar de fato passando. ‘All that i’m asking tonight, is that I make it back home alive…”, diz um verso da linda e emocionante canção, em que Lytle libera mais uma camada de sua fragilidade que, até aqui, é exposta em camadas, música após música.

O primeiro single do álbum foi “El Caminos in the West”, uma canção alegre e guitarrenta, mas com um apelo pelo retorno à normalidade – a labirintite emocional de Lytle é disfarçada pelos vernizes das guitarras crocantes e refrões cantaroláveis.

O Grandaddy também fala de amor. “‘Yeah’ Is What We Had” retrata um relacionamento terminando de forma monossilábica. É aqui que encontramos a expressão Sumday que dá título ao álbum, numa descrição melancólica de relembrar bons momentos através de, quem sabe, fotos digitalizadas: “Data files and dinner dates sumday / Till then I had best be on my way…”.

Aliás, detalhe importante em toda a obra do Grandaddy é a aproximação humana da tecnologia, muitas vezes expostas sonoramente através de camadas de teclados grosseiras ou mesmo riffs em sintetizadores, ditando as regras das músicas. As poesias de Lytle mesclam cenários bucólicos e inteligência artificial, que promovem um prejudicial afastamento das relações humanas.

Saddest Vacant Lot in All The World” é uma valsinha triste, uma crônica, tal qual a história de Jed, mas aqui retrata um triste quadro de uma família em ruínas.

Stray Dog and the Chocolate Shake” é a música mais alegre do álbum. Também a mais sem sentido, estranha e cheia de efeitos diversos. Caberia, com certa facilidade, num álbum psicodélico dos Flaming Lips, ainda que as bandas não tenham lá a mesma similaridade.

Ok With My Decay” é triste, pois Lytle se conforma com sua tristeza e sua melancolia. A faixa pode ter nascido das consequências de um acidente sofrido nos tempos em que andava de skate profissionalmente. Jason interrompeu as atividades esportivas e, por consequência, adquiriu um vício em inibidores de dor e álcool – além de iniciar o Grandaddy.

Antes do fim, o Grandaddy atinge o sublime: “The Warming Sun”, uma música triste, melancólica, daquelas que machuca a alma. É uma canção de amor perdido. The Warming Sun seria piegas na voz de qualquer artista. Mas a cumplicidade de Lytle com a emoção em seu canto triste, a dramaticidade incluída a cada camada que vai compondo a música aos poucos, faz deste o momento sublime do álbum.

O álbum encerra com mais uma valsa triste, “The Final Push To The Sum” – de novo, com M, e, de novo, Lytle reclamando daquilo que se tornou.

Sumday, é o terceiro álbum da banda, que, aqui, já era experiente, com lançamentos pretéritos, que consistem em EPs, coletâneas de singles, fitas demo e, claro, outros dois álbuns. Ainda assim, o Grandaddy nunca foi uma unanimidade pop, dentro do universo mainstream do início do século. E isso, talvez, seja explicado em Sumday, um disco que nega os caminhos do sucesso, para uma banda supostamente estava sendo empurrada para isso. 

O Grandaddy entrou em um hiato em 2006, após mais um EP e um álbum. Lytle nunca se desconectou de fato da banda, ainda que tenha gravado álbuns solo. 

A banda retornou em 2017 e segue em atividade. Seu último álbum é Last Place, de 2017.

FICHA TÉCNICA

ANO: 2003

GRAVADORA: V2/Sum Records

FAIXAS: 12

DURAÇÃO: 52:27

PRODUTOR: Jason Lytle

DESTAQUES: I’m On Standby, The Warming Sun, Now It’s On, El Caminos In The West

PARA QUEM GOSTA DE: Built To Spill, Sparklehorse, Pavement, indie rock anos 90 e 00, guitar bands.

Rodrigo Melão

Rodrigo “Melão” Camargo é pai da Victória, tutor da Padmé e casado com a Cibele, não necessariamente nessa ordem. Beatlemaníaco, Corinthiano, cozinheiro de urgências, ávido consumidor de música, filmes e séries. Às vezes um cara legal, às vezes letal. Escreve semanalmente no Instagram @prazeresplasticos. Escreve também para o site URGE (urgesite.com.br). Trabalha no setor de Telecomunicações há 25 anos, mas formou-se em Comunicação Social, talvez no intuito de manter acesa sua vontade de escrever sobre suas paixões.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *