Histórias

Os Beatles voltaram agora…e depois?

Talvez a discussão devesse ter começado (ou às vezes começou e não vimos) em 1988 quando o compositor clássico e especialista em Beethoven, Barry Cooper escreveu, a partir de rascunhos do mestre alemão, o primeiro movimento do que seria uma Décima Sinfonia.

Ou então quando Natalie Cole gravou o dueto “Unforgettable” com o pai Nat King Cole, em 1991, pai este que falecera em 1965.

Sem dúvidas, pelo menos no Brasil, a já famosa propaganda da Volkswagen, que reuniu Elis Regina e Maria Rita – mãe e filha lado a lado, cantando e dirigindo carros da montadora alemã, trouxe alguns desses debates à tona – além de outros bem mais complexos.

Mas agora, no mês em que os Beatles lançam uma música nova, com Paul, Ringo e os fantasmas de John e George, talvez seja o momento de pensarmos um pouco e tentarmos provocar algumas reflexões, a princípio para nós mesmos.

Primeiro, sim! A música é bem bonita, o vídeo faz rir e chorar ao mesmo tempo e é arrepiante pensar que estamos aqui, vivos, para ver um dos grandes grupos musicais de música pop e rock do Ocidente, se não o maior de todos, promovendo o lançamento de uma nova faixa, mais de 50 anos depois de seu encerramento, mais de 40 desde a morte de John e mais de 20 desde a morte de George; a partir de uma fita cassete entregue por Yoko Ono, onde voz e piano de Lennon foram separadas por Inteligência Artificial.

Não tem jeito, em geral somos pegos primeiro pelo lado emocional. Foi o que ocorreu com a propaganda da Volks, com Elis e sua filha. Eu confesso sem constrangimentos – fiquei um tanto derretido. Afinal, fácil é ser frio e calculista depois que todos os debates vêm a lume. “Eu falei isso no primeiro dia”, foi uma frase comum após a problematização (necessária) do caso, mas nem sempre proferida de forma honesta, com meu respeito, é claro, àqueles que assim conseguiram proceder, mais ainda, àqueles que são fãs de Elis, conhecem a triste história da separação entre mãe e filha, e ainda assim conseguiram analisar toda a situação criticamente, desde os primeiros instantes.

No caso dos Beatles, a situação acima narrada nos conduz a uma primeira mirada, no campo psicológico. Por que os efeitos especiais que provocam o “retorno” de artistas, seja no palco, cinema ou em gravações musicais, por exemplo, deixam muitas pessoas absolutamente embevecidas? Existe um mecanismo mental que nos conduz a uma região de conforto, nostalgia e/ou felicidade, quando isso ocorre? Existem pessoas que não possuem este tipo de condição? Até que ponto nossos cérebros podem (ou querem) ser enganados? Se é que de fato isso é um “engano”?

Pensando do ponto de vista do consentimento: é certo que Yoko, os filhos de Lennon e os herdeiros de George concordaram com a realização do novo single e do uso da imagem dos Beatles falecidos, e mais, que tem sido propalado que esta nova música é a última dos Beatles.

Mas até que ponto isso é verdade? Se Paul for o próximo a morrer e Ringo resolver lançar uma nova música sob a sombra do quarteto? Teria este direito? E Paul teria? E se os dois falecerem e os filhos ou netos quiserem lançar os “New Beatles”? Com a gravação de músicas novas ou regravações de temas famosos? Até que ponto isso pode acontecer? Ou mais: é possível cravar que John e George consentiriam mesmo com o lançamento de “Now and Then”?

Outra pergunta maravilhosa para horas de bate papo na mesa do bar é a seguinte: e se Paul e Ringo tivessem morrido? George e John estariam trabalhando juntos? em gravações dos Beatles?

Sim, John e George estão lá no clipe, sorrindo e cantando… só que não estão. Os próprios limites do que é uma banda ou a gravação de uma banda estão sendo testados. John fez essa demo nos anos 1970, a gravação tem violões de George e outros instrumentos gravados nos anos 1990, Paul e Ringo contribuem com takes de voz, violão, guitarra e bateria nos anos 20 do século atual, junto com modernas técnicas de gravação e compressão e as cordas de Giles Martin. Podemos perguntar: esta é uma gravação dos Beatles? Ao menos, tal como em “Free as a Bird”, temos um raríssimo caso de assinatura coletiva, entre os quatro, o que traz óbvias implicações financeiras, mas que também reforça a ideia de um “grupo”, ainda que o grupo não exista. Ou existe? como definir o que é a existência de uma banda ou artista neste 2023?

Pensando em aspectos contratuais e testamentários, podem Paul, Ringo e os espólios de John e George combinar que essa realmente é a última música a ser lançada pela banda? Paul e Ringo poderiam deixar este desejo escrito para esta e para as gerações futuras? e se não deixarem?

E os artistas todos que já se foram antes destes debates aparecerem? Podemos ter em breve novas músicas de Jimi Hendrix, Janis Joplin, Amy Winehouse a partir de demos ou rabiscos? Um bom compositor ou a Inteligência Artificial podem fazer qualquer coisa. Qual o limite? E se não houver mais limites?

E quais as as possibilidades desta tecnologia para o cinema e a literatura? Uma máquina pode aprender a fazer filmes como se fosse um Fellini? Escrever como se fosse um Shakespeare? Até que ponto as gerações futuras saberão distinguir uma obra original de uma obra criada por AI? Ou mesmo se importarão em fazer tal distinção?

Que comecem os jogos. Enquanto essas questões vão sendo discutidas em caráter obrigatoriamente multidisciplinar, podemos ficar ouvindo a bela “Now and Then” ao fundo, pensando em suas implicações ou simplesmente ficar xingando de “muito chato” o autor deste texto.

Em tempo, em 2019, Inteligência Artificial foi usada para elaborar os movimentos restantes para fechar a “10ª Sinfonia de Beethoven-Cooper”. Sua estreia se deu em outubro de 2021. Vida que segue.

Foto: Frame do vídeo de “Now And Then”, dirigido por Peter Jackson

Cristian Fetter

Cristian Fetter Mold é gaúcho mas mora em Brasília desde 1991. É advogado e professor na área de Direito de Família e Sucessões. Coleciona música em mídia física, desde os 12 anos de idade, especialmente Rock dos anos 50 a 90 e, em menor escala, Jazz dos anos 40 aos 70. É um dos criadores do Podcast "Prisioneiros do Rock" e às vezes se mete a formar bandas.

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