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“PAINT IT BLACK” – THE ROLLING STONES

Maio de 2023 marca os 57 anos do lançamento da incrível “Paint it Black” em um vinil de 7 polegadas, o famoso compacto, como era chamado no Brasil.

         Assinada, como quase sempre na história dos Stones, por Jagger e Richards, a música tem sua origem em uma série de improvisos que o guitarrista Brian Jones vinha desenvolvendo em sua cítara.

         Mais uma vez, embora sua contribuição seja inegável, Jones ficou de fora dos créditos. Isso o incomodava, e, como se sabe, uma certa sensação de alienação foi um dos motivos de seu paulatino afastamento da banda.

         A banda vinha de um passado de discos em que as covers predominavam. Tinham feito um tremendo sucesso com “Satisfaction” e “Get Off Of My Cloud” no ano de 1965 e precisavam prosseguir, atendendo às expectativas de seu crescente público (e, certamente, da gravadora).

         “Aftermath”, de abril de 66, foi o disco que ajudou a consolidar a posição dos Stones, cimentando o caminho para os grandes discos que viriam nos anos posteriores. Primeiro disco assinado 100% pela dupla Jagger e Richards e um álbum recheado de clássicos, tais como “Lady Jane”, “Under My Thumb” e “Out Of Time”.

         Na edição inglesa, “Paint It Black” não foi incluída, o que era comum. Já na edição americana, lançada quatro meses depois, o tema ficou sendo simplesmente a música de abertura do Lado A, retirando a boa “Mother’s Little Helper” do disco.

         No fim das contas, “Paint it Black” é um exemplo gigantesco de música ocidental com inflexões da música oriental e deve figurar na mesma “prateleira” onde se encontram “Kashmir” (Led), “Within You Without You” (Beatles), White Summer” (Yardbirds) e outras.

         Não há como ficar imune ao tema. Um exemplo de como fazer milagres nos limitados estúdios da época. O som da bateria, as cordas, castanholas, uma das melhores performances de Mick Jagger em toda a história da banda, os backings fantasmagóricos de Richards, a dinâmica do meio com uma percussão de tirar o fôlego, a coda e aquele som cortante do contrabaixo de Bill Wyman, a letra, tudo soa perfeito.

         O resultado não poderia ser outro. Número 1 dos dois lados do Atlântico. Façanha que a banda repetiria somente em 1969 com “Honky Tonk Women”. Considerada como uma influência na formação do punk, “Paint It Black” foi regravada por várias bandas e usada como tema para os créditos finais de dois dos mais fantásticos filmes dos anos 80 e 90: “Full Metal Jacket” e “The Devil’s Advocate”.  

         E para quem acha que estamos falando de uma velharia, já sem relevância alguma, no prestigiado seriado de 2022 sobre a personagem “Wandinha Addams” (“Wednesday”, no original), do canal Netflix, em uma das cenas em que a personagem vivida pela atriz Jenna Ortega executa seu cello, eis que “Paint It Black” reaparece, em uma versão “clássica”, para ajudar a convencer a quem tenha qualquer dúvida, que música boa não tem idade. Mais de 900 milhões de streams no Spotify corroboram essa tese.

Cristian Fetter

Cristian Fetter Mold é gaúcho mas mora em Brasília desde 1991. É advogado e professor na área de Direito de Família e Sucessões. Coleciona música em mídia física, desde os 12 anos de idade, especialmente Rock dos anos 50 a 90 e, em menor escala, Jazz dos anos 40 aos 70. É um dos criadores do Podcast "Prisioneiros do Rock" e às vezes se mete a formar bandas.

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