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Peeping Tom – O paradoxo entre o pop e o experimental

Duas opiniões bastante pessoais deste que vos escreve sobre Mike Patton:

  • Patton é prolífico. Incansável.
  • Chamá-lo de “vocalista” é reducionista, e o coloca no mesmo rol de inúmeros canastrões da música. Patton é, na verdade, cantor. Um crooner.

Patton entrou para o Faith No More no final de 1988, e produziu 04 álbuns com a banda durante uma década, até o hiato em 1998 (retornando em 2015). Durante o hiato, Patton manteve alguns projetos, como o Mr. Bungle, Fantômas, General Patton & The X-Ecutioners, Mondo Cane, Hemofiliac, Lovage, Tomahawk…e o nosso objeto de análise hoje, o projeto “pop vanguardista” Peeping Tom (cujo nome foi inspirado num filme de terror psicológico dos anos 60, do diretor Michael Powell).

Quando o FNM guinou bruscamente na contramão ao abandonar a mistura de rock com rap que lhes deu fama e fortuna, para iniciar o que hoje é conhecido como metal alternativo (a saber, entre The Real Thing, de 1989; e Angel Dust, de 1992), ninguém entendeu. Como, e porquê, abrir mão do sucesso fácil?

De todos seus projetos, Peeping Tom é, sem dúvidas, o mais paradoxal, o que mais se equilibra numa linha tênue do pop e do avant-garde, criada, evidentemente, pela mente insana de Patton.Peeping Tom tem a faceta de ser pop. Pop pra tocar no rádio, aliás. Pop do tipo cheio de “feat”, do jeito que a música passou a funcionar (lembrando que estamos falando de um álbum lançado em 2006). Ao mesmo tempo, Patton experimenta o álbum todo. É comum a quebra de barreiras e a disposição para experimentar em todos os trabalhos de Patton – vide a guinada citada no início desse texto – e aqui não se trata de uma exceção. Aqui, porém, Patton não está preso a um estilo, ou a um público. Peeping Tom entrega rock, trip-hop, hip hop, música eletrônica e pop radiofônico, numa jornada musical cheia de camadas e texturas que conseguem soar como água e óleo se misturando.

Ignorância seria dizer que apenas as texturas importam. Lembre-se: Patton é um crooner. Sua voz é a amarração, o fio condutor da obra. De sussurros a berros guturais, às vezes de um segundo para outro, Patton torna a obra um objeto, no mínimo, curioso, mas com qualidade e habilidade suficiente para que as melodias grudem na cabeça, o tal fator pop radiofônico.

Five Seconds” apresenta a proposta do álbum: um loop eletrônico somado a uma melodia quase sussurrada, abruptamente interrompida por um refrão gritado e de guitarras estridentes.

Mojo”, por sua vez, é mais pop. Grudenta e com um refrão perfeito. Esqueça “Epic”, isso é passado. “Mojo”, com Dan – The Automator (colaborador de Patton no projeto Lovage) apresenta a mistura certa, não estereotipada, de hip hop e rock.

Mais eletrônica, “Don’t Even Trip” tem participação do músico brasileiro, radicado nos EUA, Amon Tobin. “Getaway” é hip hop, com vocais divididos entre Patton e o rapper nova iorquino Kool Keith.

Dentre as ilustres participações, Bebel Gilberto participa da eletrobossa “Caipirinha”, O trio de trip hop Massive Attack participa da hipnótica “Kill The DJ”, e Norah Jones brilha e sensualiza de forma canalha em “Sucker”. O álbum encerra com a impressionante “We’re Not Alone”, uma faixa que sintetiza toda a proposta do Peeping Tom: misturar gêneros através de uma abordagem experimental, sem deixar de soar pop.

Isso faz de Peeping Tom o trabalho mais acessível de Patton, talvez desde The Real Thing (1989) , feito com força criativa  e liberdade artística do artista. Eclético, porém coeso. Experimental, sem o receio de experimentar o popular. 

Paradoxal, e por isso incrível. Patton, mais uma vez, desbrava limites da música.

FICHA TÉCNICA

ANO: 2006

GRAVADORA: Ipecac

FAIXAS: 11

DURAÇÃO: 44:00

PRODUTOR: Mike Patton / Dan, The Automator / Amon Tobin / Odd Nosdam / Massive Attack / Odd Trio

DESTAQUES: “Mojo”, We’re Not Alone”, “Sucker”, “Getaway”

PARA QUEM GOSTA DE: Beck, Faith No More, Mike Patton, Massive Attack, Gorillaz, Tomahawk.

Rodrigo Melão

Rodrigo “Melão” Camargo é pai da Victória, tutor da Padmé e casado com a Cibele, não necessariamente nessa ordem. Beatlemaníaco, Corinthiano, cozinheiro de urgências, ávido consumidor de música, filmes e séries. Às vezes um cara legal, às vezes letal. Escreve semanalmente no Instagram @prazeresplasticos. Escreve também para o site URGE (urgesite.com.br). Trabalha no setor de Telecomunicações há 25 anos, mas formou-se em Comunicação Social, talvez no intuito de manter acesa sua vontade de escrever sobre suas paixões.

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