Histórias

Precisamos falar sobre Madonna

Por mais que muitos adolescentes dos anos 80, como este aqui, tenham tentado se tornar “roqueiros radicais e sectários”, na esteira da vinda de grandes atos do hard rock ao Brasil, tais como o Kiss em 1983; além dos monstros que estiveram no Rock In Rio I: Scorpions, Ozzy, Whitesnake, Iron Maiden e AC/DC, em janeiro de 1985, isso sem falarmos no Quiet Riot, que aportou por aqui no mesmo ano do Festival;  a música pop sempre teve espaço em nossas vidas. Fosse nos nascentes programas de videoclipes, trilhas de novelas, festinhas nas casas dos amigos, etc., o pop sempre estava lá. Era aceitar e se conformar ou se tornar um eremita.

Ademais, não dá para negar que muitos gigantes do pop do começo dos anos 80, alguns curiosamente nascidos em 1958 – Michael Jackson, Prince e Madonna, por ex. – faziam um trabalho de alta qualidade. Músicas pegajosas com estrofe, ponte, refrão e até as, hoje raríssimas, mudanças de tom. Uma turma que aprendeu a fazer música ouvindo os grandes atos da década de 60 e 70, e até, no caso de Michael, interagindo com eles.   

 Quanto à Madonna, a quantidade de singles e discos de sucesso lançados especialmente nos anos 80 e 90, alçam-na a um patamar difícil de ser alcançado: o de artistas com vendagens estimadas acima de 300 milhões de discos, sendo ela a única mulher no topo deste verdadeiro “Everest” musical.

 Além disso, Madonna é considerada um ícone da moda, um modelo de artista pós-moderna e um divisor de águas na música pop feminina, dentre uma série de outros epítetos. Há um reconhecido campo de estudos acadêmicos dedicados a ela, geralmente envolvendo textos sobre gênero, feminismo, multiculturalismo, sexualidade e meios de comunicação em massa. São os “Madonna Studies” e seus autores são, seriamente, chamados “Madonna Scholars” ou “Madonnologists”.

O escritor argentino Rodrigo Fresán, em um livro de entrevistas coordenado pela Professora chilena Marcela Aguilar Guzmán, falou: “Dizer que Madonna é apenas uma pop star é tão inapropriado quanto dizer que Coca-Cola é apenas um refrigerante”. Camille Paglia, em uma entrevista para o site canadense Chatelaine, afirmou: “Ela é uma figura histórica importante e, quando morrer, as retrospectivas ficarão cada vez maiores. (…) Eu disse no começo dos anos 90 que Madonna era o futuro do feminismo. E aconteceu. A década de 90 foi a era do feminismo pró-sexo, o feminismo de Madonna”.

Vamos fazer uma conta? goste ou não, quantas dessas músicas você se lembra só de ler o título? “Everybody”, “Lucky Star”, “Holiday”, “Borderline”, “Like a Virgin”, “Material Girl”, “Crazy For You”, “Into The Groove”, “Dress You Up”, “Live to Tell”, “Papa Don’t Preach”, “True Blue”, “Cherish”, “Open Your Heart”, “La Isla Bonita”, “Who’s That Girl”, “Like a Prayer”, “Express Yourself”, “Human Nature”, “Vogue”, “Justify My Love”, “Erotica”, “Rain”, “Ray of Light”, “Beautiful Stranger”, “Music”, “Die Another Day” e “Hung Up”. Nesta rápida lista, temos quase 30 músicas. Quantos artistas têm esse privilégio?

Vamos fazer outra conta? Daqui a cerca de 12 semanas, Madonna estará completando 65 anos de idade, uma idade a qual seus companheiros da “Geração de 58”, acima citados, não conseguiram chegar.

Precisamos falar sobre Madonna.

Cristian Fetter

Cristian Fetter Mold é gaúcho mas mora em Brasília desde 1991. É advogado e professor na área de Direito de Família e Sucessões. Coleciona música em mídia física, desde os 12 anos de idade, especialmente Rock dos anos 50 a 90 e, em menor escala, Jazz dos anos 40 aos 70. É um dos criadores do Podcast "Prisioneiros do Rock" e às vezes se mete a formar bandas.

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