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Resenha – “Genesis BBC Broadcasts” (Parte 4)

O derradeiro CD da caixa “BBC Broadcasts” contempla uma transmissão ao vivo do show que o Genesis realizou em Knebworth, em 02 de Agosto de 1992, como parte da portentosa turnê decantada do disco “We Can’t Dance”, 14º álbum de estúdio e o último que Phil Collins gravou com a banda.

         Abre com o hit “No Son of Mine”, o primeiro de seis singles extraídos do LP, com duração sensivelmente maior do que no disco e segue com “Driving The Last Spike”. Ambas, como todas as músicas neste álbum (mas não as letras), são creditadas coletivamente. “We Can’t Dance” tem vendas totais estimadas em 15 milhões de cópias e é o maior êxito comercial da banda.

         Os quase 20 minutos de “Old Medley” são impressionantes. A banda faz um compilado de trechos de velhas canções conjugados com alguns hits recentes, albergando “Dance on a Volcano”, “The Lamb Lies Down on Broadway”, “The Musical Box”, “Firth of Fifth”, “I Know What I Like”, “That’s All” “Illegal Alien” e “Follow You Follow Me”. Os menos de dez segundos de “Your Own Special Way”, citados um pouco antes de “Follow” não são creditados.

         Segundo o encarte do Box, embora Mike Rutheford “calculasse” que os velhos fãs não representassem mais de dez por cento da plateia, o grupo sentiu que deveria atender as inúmeras cartas que recebia reclamando que os shows não continham “material antigo suficiente”. A execução exala sinceridade e é sempre bom ouvir Phil cantando músicas de Gabriel. A empolgação do público é marcante em vários momentos, sendo que em “I Know What I Like” a comunhão banda-audiência é total.

         “Fading Lights” começa como uma balada, mas evolui para um poderoso tema instrumental e se estende para além dos 10 minutos de duração, voltando depois ao motivo principal. Destaque para os múltiplos teclados de Banks e o trabalho primoroso de Chester Thompson nas baquetas, apesar da percussão pré-gravada, esta também utilizada no hit “Hold On My Heart”, tema obrigatório nos shows dessa tour, já que atingiu ótimas posições nas charts e até mesmo o topo das paradas em alguns países.

         O CD fecha com outro hit, a bem humorada “I Can’t Dance”, com o dobro da duração do disco. A música possui um riff de guitarra baseado em um comercial da Levi Strauss e tinha o nome provisório de “Blue Jeans”. A banda não tinha o menor interesse em desenvolvê-la e certamente seria descartada. Porém, Collins escreveu uma boa letra, Banks criou algumas camadas e o resto é história. Virou single, videoclip e quase ganhou um Grammy. Um ótimo fechamento para uma caixa histórica.

         Mais de 30 anos deste show se passaram e em 2023 o grupo, como se sabe, não está mais em atividade. Collins enfrenta graves problemas de mobilidade e uma diabetes tipo 2. Dificilmente voltará a excursionar, quiçá se apresentar ao vivo.  Mike Rutheford colocou seu projeto paralelo “Mike + The Mechanics” na estrada neste ano e andou tocando os maiores sucessos do grupo e um pouco de Genesis. Tony Banks, desde 2004, vem escrevendo peças clássicas. Seu último disco é de 2018, gravado com a Orquestra Sinfônica da República Tcheca.

         Todavia, os devotados fãs do Genesis aparentam estar satisfeitos e parecem aceitar pacificamente que o fim chegou. A caixa em questão possui uma abrangência impressionante e muitos momentos mágicos. Acho que já disse isso semanas atrás: há algo de mágico no Genesis e não podemos falar isso de muitas outras bandas. Eles não sabem dançar, mas quem se importa?

Cristian Fetter

Cristian Fetter Mold é gaúcho mas mora em Brasília desde 1991. É advogado e professor na área de Direito de Família e Sucessões. Coleciona música em mídia física, desde os 12 anos de idade, especialmente Rock dos anos 50 a 90 e, em menor escala, Jazz dos anos 40 aos 70. É um dos criadores do Podcast "Prisioneiros do Rock" e às vezes se mete a formar bandas.

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