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BRock, Safra 83: Ritchie – Voo de Coração

Esta semana vamos celebrar os 40 anos de alguns grandes álbuns do pop-rock dos anos 80, com resenhas exclusivas. É o BRock Safra 83 aqui no VoD!


Em 1982 o inglês Richard David Court completou 30 anos de idade. Morava no Brasil há dez anos, havia tocado em várias bandas por aqui, já estava casado com uma brasileira, tinha voltado à terra natal para tocar em um disco solo do baterista Jim Capaldi, ex-Traffic e, por fim, retornado ao Brasil com a ideia de gravar um disco solo.

         Tendo Bernardo Vilhena como parceiro nas composições e adotado um nome artístico, Ritchie foi recusado pela Warner, mas a CBS deu-lhe uma chance. O resultado foi o compacto “Menina Veneno” (com o lado B “Baby Meu Bem”). Lançada em fevereiro de 1983 e, segundo André Barcinski, a música mais vendida daquele ano.

         Cheio de moral e com convidados de peso, como Liminha, Chico Batera, Steve Hackett (sim! ex-guita do Genesis!) e os amigos Lulu Santos e Lobão, Ritchie soltou em junho de 1983, pela Epic (que era um selo da CBS), seu disco de estreia “Voo de Coração”, o qual vendeu no Brasil feito água mineral, chegando a bater, segundo estatísticas confiáveis, o recorde de vendas dos Secos & Molhados, o qual já durava 10 anos.

         Há que se lembrar que a primeira geração do que ficou conhecido como “Brock anos 80” ainda estava engatinhando e muitos dos veteranos atos dos anos 70 estavam em inatividade ou perto disso. Neste sentido, “Voo…” talvez tenha sido o grande disco de transição entre uma geração e outra.

         Motivos não faltam: o LP é uma aula de synthpop com pitadas de progpop (estávamos nos anos 80, frise-se), contendo composições altamente grudentas e extremamente bem executadas com instrumentos de ponta, baterias eletrônicas e sintetizadores para todo lado. Gerou vários hits, tais como “A Vida Tem Dessas Coisas”, “Voo de Coração”, “Casanova”, “Menina Veneno” e “Pelo Interfone”.

         Além disso, as faixas, digamos “desconhecidas” ou que não viraram hits, tais como “No Olhar”, “Parabéns para Você” e “A Carta”, cover de “The Letter” (original de 1967, dos Box Tops ), mantêm o nível alto e se não chegaram a tocar, certamente foi por acaso.

         Ritchie fez quase uma centena e meia de shows pelo Brasil e exterior e “Menina Veneno” chegou a ter versão em espanhol; gravou outros hits que conquistaram o país, como “A Mulher Invisível” e “Só Prá o Vento” (1984) e fez uma interessantíssima parceria com Caetano Veloso em “Shy Moon”, para o disco “Velô”, também de 1984.

         Ter sido vergonhosamente ignorado pelos organizadores do “Rock In Rio”, de 1985 e ser mal tratado por sua gravadora, segundo o próprio Ritchie, além de um interesse crescente pessoal por criação de arquivos digitais de música, são motivos geralmente citados para justificar seu afastamento paulatino dos holofotes.

         O sucesso com “Transas”, trilha de uma telenovela, além de prêmios em reconhecimento por sua obra, alguns discos solo e uma participação no Projeto “Tigres de Bengala”, juntamente com Cláudio Zoli, Vinícius Cantuária e outros, não foram suficientes para alavancar sua carreira como no passado.

         A partir de 2008, todavia, o relançamento de “Voo” em CD, com faixas bônus e a resposta sempre positiva de seus muitos fãs,  parecem ter animado o artista, o qual abriu selo e gravadora próprios e regravou seus antigos sucessos, em formato “ao vivo no estúdio”. Mais recentemente, sem pressa e com segurança, tem-se dedicado a homenagear velhos mestres, com dois discos onde interpreta (e muito bem) canções de Paul Simon e Cat Stevens.

         O coração segue voando e Ritchie merece todo nosso respeito. Se você nunca escutou, resolva isso hoje mesmo. A discografia do artista está disponível, com alcance de relativa facilidade e, a partir do último dia 11 de agosto, o cantor deu início a uma turnê comemorativa do aniversário do disco “Voo de Coração”, com elogiados shows no Rio e São Paulo.  

Foto: Encarte da reedição em CD, com fotos creditadas a Milton Montenegro e Clício Barroso.

Cristian Fetter

Cristian Fetter Mold é gaúcho mas mora em Brasília desde 1991. É advogado e professor na área de Direito de Família e Sucessões. Coleciona música em mídia física, desde os 12 anos de idade, especialmente Rock dos anos 50 a 90 e, em menor escala, Jazz dos anos 40 aos 70. É um dos criadores do Podcast "Prisioneiros do Rock" e às vezes se mete a formar bandas.

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