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Roger Waters: Não foi um ensaio

Quando soube que o show de despedida (será mesmo?) de Roger Waters intitulado “This is not a drill” passaria por São Paulo, consultei minha esposa para saber se eu gostaria de ir. Assim que ela afirmou que sim, corri para comprar o ingresso. Ao acessar o site, constatei que os ingressos para as cadeiras inferiores estavam esgotados, restando apenas a opção de pista. Decidi que não ficaria em pé por três horas no meio de uma multidão, considerando minha falta de paciência para isso.

Desde a adolescência, sou fã de Pink Floyd, e não poderia perder a chance de assistir ao que poderia ser o último show de Roger Waters no Brasil. Para minha alegria, na manhã seguinte, recebi um e-mail do site de venda de ingressos informando sobre uma sessão extra no domingo, com início das vendas às 20:00 do mesmo dia. Passei o dia ansioso, observando o relógio até que, às 20:22, recebi a confirmação: “Parabéns, você garantiu seus ingressos para ROGER WATERS – SP – EXTRA!”.

Agora, restava esperar por longos 106 dias até o show.

Deixando de lado as formalidades, vamos ao evento. Cheguei por volta das 15:20 no portão indicado em meu ingresso e, para minha felicidade, NÃO HAVIA FILA. No entanto, isso se explicava pelo calor de 38 graus Celsius naquela tarde. Entrei em um bar ao lado do estádio, de frente para a fila, pedi uma água e aguardei a abertura dos portões. Às 16:00, a pequena fila começou a andar, e em 30 minutos, já estava sentado na cadeira 28 do setor C do estádio do Palmeiras, com o sol escaldante sobre minha cabeça.

Foram 3 horas e meia até o início do show mais aguardado dos últimos anos, mas que passaram rápido com as conversas com meu amigo Wilson, que foi comigo, e com as pessoas ao nosso redor. O público era diversificado, desde adolescentes com seus pais na faixa dos 50 anos até senhores e senhoras com mais de 70 anos. Destaque aqui para um senhor de +70 que estava próximo de mim que literalmente dançou, cantou, tocou air guitar, air drum o show INTEIRO. Não tenho dúvidas nenhuma que ele foi o que mais curtiu o show.

Às 20:00 em ponto, os telões anunciaram com uma mensagem em português e a voz de Roger: “Senhoras e senhores, gostaríamos de avisar que faltam 15 minutos para o início do show”. Essa mensagem repetiu-se com 10 minutos e 5 minutos de antecedência.

Precisamente às 20:15, a última mensagem de Roger foi transmitida:

“Senhoras e senhores, por favor ocupem seus lugares, o show está para começar. Mas antes, vamos a dois comunicados públicos. Em primeiro lugar, por consideração aos que estão ao redor, por favor desliguem seus celulares. E em segundo lugar, se você for um daqueles que diz ‘Eu amo o Pink Floyd mas não suporto as visões políticas do Roger’, bem, vá se f… e dirija-se para o bar agora. Obrigado, por favor, sente-se e aprecie o show”.

Agora, faço um adendo para abordar meu posicionamento político e algumas críticas. Muitas das opiniões de Roger eu não concordo, e muito do que foi mostrado no início do show também não concordo. No entanto, eu, Julio Cesar, consigo separar o artista da pessoa física e continuo a apreciar as músicas de artistas polêmicos, como sempre fiz. Dois bons exemplos nesse sentido são Roger Waters e Eric Clapton.

Retornando ao evento, a primeira música apresentada foi “Comfortably Numb”. Nada poderia expressar melhor meu sentimento naquele momento, em que eu estava confortavelmente entorpecido. A versão apresentada foi a incrível versão do álbum de 2022 de Roger, chamado Lockdown Sessions. A clássica música do Pink Floyd foi tocada de maneira solene, apenas com órgão, bateria e o uníssono das vozes de Roger e das backing vocals extraordinárias, Amanda Belair e Shanay Johnson.

Sem dar tempo para respirar, seguiram-se “The Happiest Days of Our Lives”, “Another Brick in the Wall, Part 2” e “Another Brick in the Wall, Part 3”. O espetáculo foi acompanhado por imagens, fogos de artifício e efeitos sonoros espetaculares.

Imagens e palavras impactantes, por vezes chocantes, associadas a casos brutais de morte, assassinato, massacres e violência com motivação racial, foram habilmente conduzidas por “The Powers That Be” e “The Bravery of Being Out of Range”.

O espetáculo prosseguiu com três momentos notáveis: “Have a Cigar”, com uma comovente homenagem a Syd Barrett, e a narrativa emocionante da amizade em “Wish You Were Here”, onde todas as fotos e textos que contaram brevemente sobre a história do Pink Floyd e a relação com o amigo levaram o público a um estado de profunda emoção e conexão, meu olhos encheram de lágrimas pela primeira vez na noite, seguida da magnífica “Shine on You Crazy Diamond”.

O primeiro ato chegou ao fim com uma versão espetacular de “Sheep”, acompanhada por uma imponente ovelha percorrendo a arena, enquanto as telas de vídeo recapitulavam os principais temas da noite.

Destaque aqui para o som do evento. Parecia que eu estava em uma sala com um som 6.1, efeitos de posicionamento do som bugou minha cabeça diversas vezes em “Sheep” e em todo o show, inclusive no intervalo.

Aí temos o “intervalo” do show, 15 minutos para dar aquela esticada nas pernas, ir ao banheiro, comprar uma água. Nisso quem surge imponente? O PORCO.

Perceberam as aspas no intervalo?

Explico… durante a andança do porco pela cabeça multidão com as frases escritas no corpo “He’s mad don’t listen” e “You’re up against the wall right now” poucas pessoas perceberam duas frases que apareceram muito rapidamente no telão: “aproveite a liberdade ela é rápida e pode acabar a qualquer momento” e uma imagem de grades de prisão apareceram no telão.

E nisso o porco ainda voando sobre nossas cabeças com seus olhos vermelhos como lasers e começa um som bem baixinho a ecoar no estádio todo, dando a impressão de que o público está falando algo. Nisso esse som começa a aumentar e a ficar mais nítido o que estão dizendo “HAMMER! HAMMER! HAMMER! HAMMER! HAMMER! HAMMER!” e BUM !! todas as luzes se apagam do estádio, efeitos de fogos vindo do palco, uma introdução característica sendo tocada e o Roger entra amarrado em uma camisa de força, sentado em uma cadeira de rodas e começa a cantar “In the Flesh”. Minha cabeça simplesmente explodiu com essa “manipulação” do público, sendo entretido por um porco voador e a maioria sendo pegos de surpresa. Simplesmente INCRÍVEL.

O show prosseguiu com “Run Like Hell”, “Déjà vu”, “Is This the Life We Really Want?”, “Money”, “Us and Them”, “Any Colour You Like”, “Brain Damage”, “Eclipse”, “Two Suns in the Sunset”, “The Bar (Reprise)” e “Outside the Wall”.

Quero destacar especialmente as cinco músicas do lado B de The Dark Side of the Moon, apresentadas em sequência. Cada uma superou a anterior, mas foi em “Eclipse” que Roger Waters e toda a banda nos presentearam com uma interpretação verdadeiramente magnífica.

Nesse momento, uma pirâmide de laser surgiu na frente do palco, com o raio de luz sendo representado nos telões, atravessando a pirâmide. As cores se transformavam ao passar de um telão para o outro, culminando em feixes de luz em direção ao teto do estádio, onde a luz se separava como se tivesse sido passada por um prisma. Foi nesse instante que me emocionei novamente.

A musicalidade nostálgica do Pink Floyd e o ativismo social estão profundamente enraizados no DNA de Roger Waters, resultando em shows que se transformam em verdadeiros espetáculos impactantes e hipnotizantes. A experiência é tão intensa, com tantos elementos ocorrendo simultaneamente, que resistir ao deslumbramento se torna praticamente impossível. Simultaneamente, o público, entregando-se por completo à experiência, canta cada música de olhos fechados, os braços erguidos, criando uma atmosfera que o transporta diretamente para o coração de um verdadeiro fã.

Meu veredito? Iria 10x nesse show e mais 20x em qualquer outro do Roger Waters.
Vida longa ao Rogérinho Águas

Setlist:
“Comfortably Numb” (versão do álbum Lockdown Sessions)
“The Happiest Days of Our Lives” (Álbum: The Wall)
“Another Brick in the Wall, Part 2” (Álbum: The Wall)
“Another Brick in the Wall, Part 3” (Álbum: The Wall)
“The Powers That Be” (Álbum: Radio K.A.O.S.)
“The Bravery of Being Out of Range” (Álbum: Amused to Death)
“The Bar” (inédita)
“Have a Cigar” (Álbum: Wish You Were Here)
“Wish You Were Here” (Álbum: Wish You Were Here)
“Shine On You Crazy Diamond” (Parts VI-IX) (Álbum: Wish You Were Here)
“Sheep” (Álbum: Animals)
“In the Flesh” (Álbum: The Wall)
“Run Like Hell” (Álbum: The Wall)
“Déjà vu” (Álbum: Is This the Life We Really Want?)
“Is This the Life We Really Want?” (Álbum: Is This the Life We Really Want?)
“Money” (Álbum: The Dark Side of the Moon)
“Us and Them” (Álbum: The Dark Side of the Moon)
“Any Colour You Like” (Álbum: The Dark Side of the Moon)
“Brain Damage” (Álbum: The Dark Side of the Moon)
“Eclipse” (Álbum: The Dark Side of the Moon)
“Two Suns in the Sunset” (Álbum: The Final Cut)
“The Bar (Reprise)” (dedicado ao Bob Dylan)
“Outside the Wall” (Álbum: The Wall)

Julio Cesar Mauro

Julio Cesar é colecionador de discos e fã incondicional de Queen e Pink Floyd

2 thoughts on “Roger Waters: Não foi um ensaio

  • Poxa… Emocionante. Li o seu texto me imaginando no show. Não consigo classificar o Pink Floyd como somente uma banda… é muito…muito mais do que isto. Cada música te faz viajar dentro de si mesmo… Irado demais!

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