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Roots é a prova que o Sepultura não queria se acomodar

O Roots já estava na minha lista de resenhas antes mesmo do comunicado do fim do Sepultura.

Além de ser o álbum que transformou a banda no que ela é hoje no quesito popularidade, esse álbum é de tamanha importância na minha formação musical que não há como não fazer uma resenha.

Mesmo acompanhando a banda desde Arise, Roots foi o primeiro álbum que peguei toda a divulgação de lançamento, vale lembrar que não havia essa enxurrada de conteúdo que vivemos hoje.

Na época ficávamos presos a escassas revistas, jornais impressos, rádios ou Mtv, sim, havia algum espaço esporádico em alguma TV aberta para o metal, mas ele era mínimo.

Soma-se a isso, uma banda brasileira cantando e inglês, além do preconceito com as pessoas que ouviam som pesado e andavam de cabelos compridos e roupas largas.

Se hoje, ainda é difícil termos bandas brasileiras cantando em inglês fazendo um certo sucesso fora do país, nos longínquos anos 90 a coisa era muito mais difícil.

Uma era pré-internet, com veículos de comunicação fechados, saber que existia uma banda nacional que estava galgando o mercado internacional era incrível.

Mas foi em 1996 que realmente a banda encontrou o seu espaço nos EUA e Europa em definitivo e com grande repercussão a partir de Roots.

Roots e o nu metal

Com coprodução da banda e do “papa” do nu metal, Ross Robinson, a banda foi muito afundo nas percussões brasileiras e levou ao mundo um ritmo diferente, mesmo em uma época onde o groove havia passado a frente da velocidade em termos de gosto geral do público.

Se o Korn foi um dos primeiros a fazer todos pularem, o Sepultura revolucionou e mostrou em Roots que não queria seguir o caminho tradicional do metal.

Imagens: Arquivo Folha

A banda tinha mais estrada que a geração nu metal e estava antenada com o que acontecia lá fora, participava dos principais festivais e tinham dois diferenciais que os gringos não tinham.

Primeiro, a capacidade de se reinventar, ao contrário das bandas de thrash metal de sua geração, o Sepultura sempre se transmutou, sempre buscou realmente se diferenciar a cada disco lançado.

E segundo, eles vinham de um país fora da rota EUA/Europa, um país continental e riquíssimo em diversidade de ritmos.

E morando fora do Brasil, parece que isso fez despertar a busca por suas raízes, e foi nisso que eles apostaram em Roots.

Resenha de Roots do Sepultura

O disco começa com a clássica ´”Roots Bloody Roots”, impossível a banda não tocá-la ao vivo nos dias de hoje. Tem um ritmo incrível na cozinha e pensado pra levar o público à loucura nos shows. Max está em sua melhor forma e os efeitos em sua voz ajudaram a destacá-la, impossível ficar parado com essa faixa! O clipe é um show à parte, colocando pessoal da Timbalada, corpos pintados, berimbau e a famosa capoeira no vídeo e divulgando a cultura pra fora do país.

“Atittude” é outra que chama atenção com berimbau regado a reverb, guitarras bem noise abrindo a música e som arrastado. Tudo isso causou muita estranheza na época do lançamento pois era bem diferente não só que a banda fazia, mas diferente do que as bandas de nu metal apresentavam. Essa é uma das razões do porque não tem como colocar a banda na mesma prateleira. Arrastada, agressiva, energética, e com muito tempero tribal.

Em “Cut-Throat” fica nítido o approach tribal do disco e onde a banda queria chegar, groovada, agressiva, com as guitarras fazendo camas e bases que se intercambiam entre o groove e bases retas.

“Ratamahatta” é uma daquelas que os truezões torceram o nariz, pois entre os convidados está Carlinhos Brown que estava no auge com a Timbalada, e na cabeça dos fãs mais radicais era inadmissível colocar um artista “pop” dentro desse ambiente metal. É um faixa “fodaralha” que caiu como uma luva no conceito do disco, muito percussiva e com riff pegajoso, além de vocais marcantes de Max e Brown.

A sequência com “Breed Apart” é matadora, explorando mais um vez os ritmos e muito groove, afinações baixas e experimentalismo, um característica sem sombra de dúvida do álbum inteiro.

Evoluindo baixo e bateria com guitarras que criam uma cama sonora inicialmente na música, “Straighthate” é energética, com guitarra lamacenta que acompanha o vocal na hora cantada, um riff bem construído de baixo criando o ambiente perfeito para a “podrera” da ponte e os gritos do refrão.

“Spit” é um tapa na cara, influência clara de hardcore, ela é direta, sem meias palavras, o baixo que dá início a música já cria o clima do que vem a ser ela. Pontes e refrãos muito bem pensados e estruturados.

“Lookway” tem a digital de Jonthan Davis do Korn e Mike Patton, além do DJ Lethal, a faixa é uma das mais estranhas do disco, arrastada com vocais distorcidos e algo ritualísticos nos vocais.

A predecessora “Dusted” é ótima, nessa hora você já está envolvido na musicalidade e experimentalismo do álbum, e sente-se familiar com tanto groove, tribalismo e guitarras pesadas.

“Born Stubborn” lembra um pouco, do que o sepultura fez em Chaos AD, talvez pelo construção da música e pelos timbres de guitarra, mas ela também tem um sabor de Nailbomb, projeto do Max Cavalera. 

Nesse momento, a banda pisa no freio e entra numa fase violões com “Jasco”, um misto de música clássica com música tribal, talvez advindas da influência indígena Xavante, que por sinal é bem clara em “Itsári”, a próxima do disco onde há participação da tribo citada anteriormente. Foi aqui que eles ganharam o respeito dos gringos.

Esse nível de experimentalismo no metal não havia acontecido até então.

Mas engana-se quem acha que o disco acabaria nessa onda indígena e tribal, na sequência fomos presenteados com mais três porradas.

“Ambush” que é uma das melhores do álbum sem sombra de dúvidas, menos experimental e com uma estrutura musical mais inteligível, agressiva como todas as outras e ótimos grooves e melodias vocais marcantes.

“Endangered Species” a penúltima faixa começa experimental com guitarras noise fazendo um fundo barulhento, mas nessa fase do disco nada mais te surpreende em termos sonoros, você já passou praticamente por todo álbum e por todas as esquisitices e experimentalismos(para o bem e para o mau) que o disco proporciona. Mesmo contando com percussão de Carlinhos Brown com berimbau, lataria e surdos.

Ditactorshit é outro tapa na cara, um hardcore extremamente barulhento com percussão de Carlinhos Brown que é engolida pelas guitarras de Andreas e Max.

Roots além de revolucionário é um álbum corajoso do Sepultura que poderia ter ficado acomodado no seu thrash metal de Arise ou um pouco mais groova de Chaos AD mas resolver não se acomodar e seguiu em frente.

Marcelo Scherer

Jornalista, fundador do Disconecta, do Canal Disconecta no Youtube e colaborador do coletivo Vira o Disco.

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