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SINÉAD

Contextualizações históricas feitas às pressas sempre podem conter erros e/ou reducionismos, mas vamos lá: pelo que me lembro, em 1987, a parada de sucessos feminina era composta por artistas como Madonna, Janet Jackson e Whitney Houston; Bjork começava a chamar atenção como um dos vocais dos Sugarcubes. Alanis era uma cantora infantil no Canadá; Babes in Toyland e outras riot girls estavam ainda ensaiando em garagens paternas. Patti Smith estava morando em um subúrbio e cuidando de seus filhos. A conterrânea irlandesa Dolores estava na escola.

         De repente, mais para o fim do ano, os programas de videoclips “pré-MTV Brasil” começaram a passar um vídeo de uma jovem cantora com um daqueles nomes irlandeses que a gente jura que está pronunciando corretamente, tais como Siobhan e Caoimhe. O visual da garota era um tanto desafiador: bela, cabeça raspada, ar rebelde, voz cativante, agudos perfeitos.  A música tinha um nome que podíamos facilmente traduzir, embora não soubéssemos até então que a palavra existia em Inglês: “Mandinka”.

         Pouco tempo depois, seu LP de estreia podia ser encontrado nas lojas de discos. “The Lion and The Cobra” é um disco extremamente interessante. Faixas fortes, instrumentação densa, inconstância e impermanência. Poucas faixas se aproximam do apelo rock/pop de “Mandinka”. A experiência é como a de escutar um disco da retrocitada Patti Smith daqueles dos anos 70. Aliás, talvez não seja errado dizer que Sinéad pode ter sido uma ponte para ligar as mulheres fortes e rebeldes da música dos anos 70 (Chrissie, Debbie e outras) com as dos anos 90.   

         Para aqueles que pensam que o primeiro grande sucesso de Sinéad é o que importa nesse disco, sugere-se uma escuta atenta. “Lion”, como um todo, é um grande disco de estreia.

         Três longos anos depois, a cantora lançou seu segundo disco e alcançou o estrelato. Bem diferente do primeiro, “I Do Not Want What I Haven’t Got” abre com um baladão, depois tem um rap com inflexões da música árabe, muitas músicas praticamente só com violão e voz (aliás a faixa título é toda levada “no gogó”), e é claro os megassucessos “The Emperor’s New Clothes” e “Nothing Compares 2 U”, que ajudaram muito a entronizar o álbum no número 1 em quase vinte países, conduzindo-o a vendas que, hoje, superam a marca de 7 milhões de cópias, número que deve subir após o falecimento da cantora.

         Quando parte do público não sabia bem o que esperar e outra parte esperava uma continuação do seu disco de grande sucesso, Sinéad lançou um terceiro álbum recheado de covers de jazz – “Am I not Your Girl”, que é absolutamente uma delícia de se ouvir.

         Mas muitos já não queriam ouvi-la. Atitudes iconoclastas e altamente polêmicas, as quais estão sendo obstinadamente lembradas pelos principais portais de notícias, como se isso resumisse a carreira e a pessoa da artista, tornaram Sinéad quase uma persona non grata em Programas de TV e na grande mídia em geral. Parte do público também se afastou.

         Ao longo dos anos Sinéad continuou inquieta. Mudou de nome e de orientação religiosa algumas vezes e gravou discos de reggae e música tradicional irlandesa, dentre outros. Ademais, uma série de problemas de saúde e pessoais (divórcios e inclusive o brutal suicídio de um filho), certamente abreviaram sua carreira (o último disco de estúdio é de 2014…) sua qualidade de vida e (talvez) sua longevidade. Não se sabe (ao tempo do fechamento deste texto) a sua causa mortis. De todo modo, há uma grande tristeza no ar. Nos últimos anos, por que paramos de escutá-la? Por que não demos atenção ao que ela tinha para dizer? Sinéad tinha razão ou não? É possível responder a essas perguntas com uma resposta simples?

         Para nós aqui, ouvintes atentos a tudo o que é relacionado à música, só há um jeito de saber e, como se sabe, a obra deixada por Sinéad está à nossa disposição com fácil acesso. Vamos ali?

Foto creditada à Associated Press tal como publicada no site www.news.sky.com

Cristian Fetter

Cristian Fetter Mold é gaúcho mas mora em Brasília desde 1991. É advogado e professor na área de Direito de Família e Sucessões. Coleciona música em mídia física, desde os 12 anos de idade, especialmente Rock dos anos 50 a 90 e, em menor escala, Jazz dos anos 40 aos 70. É um dos criadores do Podcast "Prisioneiros do Rock" e às vezes se mete a formar bandas.

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