Discos

Sobre adolescência, camelos, amigos e Slayer (ou, eterno clipe dos camelos e dos cavalos)

Arte da capa de Seasons In The Abyss, da banda Slayer (1990). Arte de Larry Carroll

Quantos amigos (e digo AMIGOS DE VERDADE) nós temos? Se contar nos dedos da mão, às vezes, sobra mão. Pois é. Resolvi que minhas próximas 3 resenhas serão sobre discos que tive algum tipo de experiência com meus AMIGOS. Pessoas que, mesmo não dividindo diretamente meu dia-a-dia, fazem parte de quem eu sou e dividiram comigo grandes e talvez fundamentais momentos musicais da minha vida.
Essa é a primeira delas:

O disco que falarei a seguir é o Seasons in the Abyss do Slayer. Muitos podem dizer que falando de Slayer, deveria falar do Reign In Blood (1986), que sem dúvida alguma é a obra prima da banda, além de ser um dos discos mais influentes de thrash metal de todos os tempos.
Isso realmente é inegável. Eu também gosto demais desse disco, porém o Seasons tem meu coração.

Me lembro bem que na minha adolescência, em meados dos anos 90, quem ouvia “rock pesado” tinha poucos canais especializados nesse tipo de música. Você podia ler a Rock Brigade, que trazia algumas novidades das bandas da época, ouvir a 89 (N.E.: em São Paulo) e se surpreender com Cop Killer do Body Count em pleno meio-dia (bons tempos que não voltam mais), ou então podia esperar pelo dia de assistir os vídeo clipes do “Fúria Metal” da extinta MTV.

Na época do fato que vou contar a seguir, quem dominava as paradas de rock eram justamente o Metallica com o “Black Album” (1991), a onda grunge de Nirvana com o bombástico “Nevermind” (1991), além de outros bons discos que despontavam como o Countdown to Extinction do Megadeth (1992), No More Tears do Ozzy Osbourne (1991), March or Die do Motörhead (1992) e por aí vai.

Um belo dia, ao final do Fúria Metal, passou um vídeo clipe que marcou a minha vida, e a vida de meu primeiro amigo a ser citado aqui, cujo o nome é André.
O vídeo clipe era de Seasons In The Abyss, do Slayer. Ficamos impactados de tal forma com esse clipe que, no dia seguinte, na escola, um perguntou ao outro:

– Você viu o Fúria ontem?
Ambas as respostas foram: “Sim.” E aí começou:
– Você viu aquele clipe? Com uns camelos, os caras tocando no deserto? Maior doideira!

Lembro bem das nossas reações como se fosse hoje.
Seasons In The Abyss tornou-se meu disco favorito do Slayer, justamente por esse impacto gerado em mim e em meu amigo, na mesma intensidade. Não sei se para ele esse é o disco queridinho do Slayer, mas o meu é.

Além disso, foi o primeiro disco deles que eu comprei, na Acervo, aqui em Osasco (N.E.: loja local famosa, na época). Me lembro como se fosse hoje a minha cara ao ver a capa do disco. Aquela caveira mal rabiscada, que vomitava outros crânios dentro de uma cruz invertida, e tudo meio pegando fogo. Isso sem falar nas três cruzes invertidas na contracapa. Para um bom católico, era como se estivesse comprando minha passagem pro inferno. Meu pensamento: “minha mãe vai me matar”.

Bom, chega de enrolação e vamos ao que interessa: o disco.
Seasons vem depois de 2 anos do último lançamento da banda, o denso South of Heaven (1988), um ótimo disco também, mas que talvez tenha “surpreendido” os fãs após a pedreira que foi o Reign in Blood (1986). E Seasons in the Abyss (1990) vai quase que pelo mesmo caminho do seu antecessor, porém com um pouco mais de velocidade.

Vale destacar que todos esses álbuns citados anteriormente, e também o alvo da resenha, foram produzidos por Rick Rubin, lendário chefe da gravadora American Records. Inclusive, segundo Kerry King, Seasons in the Abyss foi o último disco em que Rubin realmente esteve presente no processo de produção e desenvolvimento do disco. Depois ele só aparecia para mudar alguma coisa da bateria ou arrumar um microfone e mais nada.

Creditos: Chris Walter / WireImage

O álbum começa com “War Ensemble”, um petardo de primeira qualidade e que vem bem de encontro com a Guerra do Golfo que teve início em agosto daquele ano, pouco tempo antes do lançamento do disco, que seria em outubro de 1990. Daí em diante, são 10 faixas que valem muito cada segundo de audição. Destaco as faixas “Spirits in Black“, “Expendable Youth“, “Born of Fire”e “Hallowed Point“.

E como diria Tom Araya: “Vou contar uma pequena história sobre um homem chamado ‘Ed‘”. ”Dead Skin Mask” cita a tenebrosa história de Edward Theodore Gein, um assassino que viveu em Wisconsin e tinha uma obsessão pela mãe. Ele violava túmulos e guardava em casa pedaços de ossadas além de ter feito uma máscara com pedaços de pele de pessoas já mortas. Daí o nome da música.

E para não me estender ainda mais, destaco a faixa título, que fecha o álbum com chave de ouro.

Falando em Tom Araya, esse foi o primeiro disco em que ele contribuiu com a composição das músicas. Ele escreveu a letra de 4 das 10 faixas do álbum (“Blood Red“,” Expendable Youth“, “Dead Skin Mask” e a própria “Seasons in the Abyss“), além de co-escrever com Jeff Hanneman outras duas letras (“War Ensemble” e “Born of Fire“).

O ponto triste desse disco, e isso na minha opinião, foi a primeira saída do genial Dave Lombardo ao final da turnê desse disco, em 1992, tour que futuramente geraria um dos álbuns ao vivo que eu também tenho como um dos meus favoritos, perdendo apenas para o Live After Death do Iron Maiden, que é o Decade of Aggression (1992).

Outro fato interessante é que justamente esse clipe que gerou toda a minha admiração e fez eu ir atrás do som do Slayer, foi também o primeiro clipe da banda. Eles foram avessos a produzirem um vídeo clipe durante anos, porém para esse álbum, e como a popularidade da banda crescia cada vez mais, eles decidiram gravar então dois vídeos para ajudar na divulgação do disco: “Seasons in the Abyss e “War Ensemble“.

Disco mais que recomendável para ser ouvido com o som no talo. E como diria o então apresentador do Fúria Metal: “Hora da voadora no lustre.” E o lustre que lute.

Quem será o próximo amigo na parada? E que disco virá com ele?
Aguardem…
Bom divertimento sempre!

Ficha Técnica:

Lançamento​: 9 de outubro de 1990
Duração​: 42:27
Produção​: Rick Rubin, Andy Wallace e Slayer
Gravadora: ​American Records
Destaques: ​War Ensemble, Dead Skin Mask, Spirits in Black
Pode agradar: ​Fãs de thrash metal
Faixas: ​​10

Rafael Mathias

Rafael Mathias, 44 anos, osasquense com orgulho, marido da Fernanda, pai da Sofia e do Joaquim, roqueiro por paixão, eclético por vocação! Trabalha na área de eventos como operador de teleprompter há 13 anos, inclusive operando para muitos cantores que vcs podem gostar e nem sabem que usam TP pra lembrar a letra.

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