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Strangeways, Here We Come – The Smiths

Quando o álbum Strangeways, Here We Come chegou às lojas no Brasil, em algum momento de março de 1988, já se sabia há tempos que os Smiths tinham acabado.

Aliás, Strangeways, Here We Come praticamente chegava aqui junto com Viva Hate, a estreia solo de Morrissey. E, numa doce ironia, quem também foi lançado nesse pacote foi o álbum homônimo de estreia dos Smiths, de 1984.

Dá pra imaginar a mistura de sensações que isso provocou nos fãs brasileiros da banda. O fim, o começo e o recomeço da carreira do vocalista e compositor, tudo ao mesmo tempo agora.

Mas hoje é dia de falar da despedida da banda, Strangeways, Here We Come, que era apenas o quarto álbum e que completa 36 anos do seu lançamento original neste 28 de setembro.

Ter o último disco de sua banda preferida em mãos, sabendo que provavelmente seria mesmo o último (ainda havia alguma esperança de retorno da banda naquela época) é bem agridoce. Além disso, se trata de um trabalho diferente de tudo que a banda tinha gravado. Johnny Marr decidiu que não soaria mais como Johnny Marr. Pelo menos não o tempo todo. E, sem dúvida, não soa na faixa de abertura, que sequer tem guitarra.

“A Rush And A Push And The Land Is Ours” abre o disco e é conduzida pelo piano tocado por Marr. Causa estranheza num primeiro momento mas isso passa logo. Morrissey continua dramático, mas canta aqui com leveza e competência, rasgando a voz nos refrões dessa faixa com tom político e baseado num texto de Jane Wilde – simplesmente a mãe de Oscar Wilde. Aliás, muito tempo depois descobri que o piano de Marr na introdução da faixa é uma assumida homenagem à faixa “Shoes” de um Girl Group chamado Reparata.

Tem mais piano em “Death of a Disco Dancer”, mas aí quem toca – pra surpresa de todos – é Morrissey. A música inteira é fora da caixa, principalmente na segunda metade, com seu clima psicodélico, arranjo de cordas (na verdade, sintetizadores, tocados por Marr), o piano alucinado, a bateria sendo martelada sem dó.

O mesmo clima aparece em “Last Night I Dreamt That Somebody Loved Me”, com seus quase dois minutos de introdução com (de novo ele) piano e sons de gritos ao fundo – uma manifestação de mineiros em greve na Inglaterra. É angustiante, é hipnotizante. E quando, enfim, a música realmente começa, é com um estrondo e com Morrissey cantando versos de desesperada melancolia, como ele tão bem fazia naqueles tempos.

Em “Paint a Vulgar Picture”, Morrissey faz uma crítica ácida à indústria fonográfica e suas políticas de marketing. Ironicamente, em sua carreira solo o cantor fez tudo que citou nessa letra: lançou álbuns com capas diferentes, relançou com faixas extras, tem três coletâneas “best of” e uma “greatest hits”.

Não se deixe enganar pelo clima pop-fofo-anos-60″ de “Girlfriend in a Coma”. Essa letra seria sem dúvida cancelada hoje em dia. “Houve momentos em que eu poderia tê-la matado”? Quem será que deixou essa namorada em coma?? Se bem que o próprio Morrissey já passou dos limites de qualquer cancelamento faz tempo.

Claro que tem coisas Smitheanas no disco. “Stop Me If You Think You’ve Heard This One Before” tá ali na mesma caixinha de “Panic” ou “Ask”. A faixa de encerramento, “I Won´t Share You”, tem o clima de “Back To The Old House”.

Mas, no geral, é fácil sentir a vontade de mudar o som da banda. Algo gradual e bem pensado. Onde isso chegaria num (hoje impossível) quinto álbum? Talvez por isso ele seja o disco preferido tanto de Johnny Marr quanto de Morrissey.

No fim das contas, a despedida da banda é um ótimo disco, que em outras circunstâncias seria mais aclamado. Mas, pouco mais de quatro meses após seu lançamento no Reino Unido, “Suedehead” – primeiro single da carreira solo de Morrissey – chegava às lojas e rádios. E o quinto lugar que essa canção alcançou nas paradas britânicas era uma posição melhor que qualquer lançamento dos Smiths. Coisas da vida.

Filipe Silva

Metade do Prisioneiros do Rock

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