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The Buzzcocks: a (mais punk) antítese punk

Deixemos de lado a eterna competição “quem inventou o punk?”, à qual os americanos insistem em puxar a sardinha para sua brasa, ao citar as bandas proto punk de Detroit da primeira metade dos anos 70.

Na segunda metade daquela década, do outro lado do Atlântico, o punk rock assumia suas porções mais elementares, e ganhava estética visual e comportamental. Os primeiros lançamentos, já adotando essa equação “música rudimentar + visual agressivo”, foram das bandas The Damned, Sex Pistols e The Vibrators, tudo isso acontecendo no final de 1976 na Inglaterra, país em que também assumem o posto de “inventores do punk”.

No início de 1976, em Bolton – Inglaterra,  uma banda é formada após assistirem um show dos Pistols em Manchester. Em 1977, essa mesma banda ganha destaque com um EP lançado por um selo próprio, independente. Era o The Buzzcocks, e o EP em questão chamava-se Spiral Scratches.

A música dos Buzzcocks era tão rudimentar e raivosa quanto das demais bandas punks, com a diferença do conteúdo lírico e visual: a temática envolvendo relações humanas, amores e desamores, sentimentalismo, além do visual “comum e nada agressivo” faziam da banda um peixe fora do aquário punk.

Após o lançamento de Spiral Scratches, algumas mudanças na formação: Pete Shelley, guitarrista, assume os vocais (com a saída de Howard Devoto, que formou o Magazine), e Steve Diggle assume as guitarras secundárias, cedendo o baixo para Steve Garvey. Essa formação entrega, em Maio de 1978, o primeiro álbum ‘cheio’ dos Buzzcocks, Another Music In A Different Kitchen.

Capa do álbum Another Music In A Different Kitchen, 1978,
Capa do álbum Another Music In A Different Kitchen, 1978,

A característica musical/visual dos Buzzcocks tinha influência do punk niilista dos Pistols, ou do combativo Clash, ainda que soassem como uma antítese visual e lírica dessas bandas. Além disso, o minimalismo musical pinçava referências no rock alemão de bandas como Neu! e Faust. 

Another Music In A Different Kitchen é, sem dúvidas, o mais abrasivo e áspero dos três álbuns do Buzzcocks em sua fase inicial. Músicas como “Sixteen” e “Fiction Romance” se sustentam com riffs repetitivos e letras emocionais – ainda que estejamos tratando de muita desordem emocional. Em “Sixteen”, Shelley diz ao seu antagonista que ‘não gosta de beijos de língua, pois você engole minha língua, e você pensa ser muito mais velho e só me quer por achar que sou muito novo”.

Não! Não era essa a temática comum do punk!

Fonte: Fin Costello/Redferns

Aliás, “You Tear Me Up” também abusa da repetição de riffs robóticos, num proto-hardcore que transborda sentimentalismo.E talvez “Moving Away From The Pulsebeat” seja a que mais traduz essa influência do krautrock, seja por uma estrutura de repetição quase robótica, seja por seus quase 8 minutos de duração – outra antítese ao rápido e urgente punk rock. E, apesar de ser o álbum mais minimalista e nervoso, há aqui as notas pop grudentas, melodias elegantes, e as letras que exploravam os sentimentos dos jovens por todo o álbum.

Vale um fato importante da história: foram através de seus singles, altamente açucarados e melódicos, que os Buzzcocks alcançaram notoriedade, o que colocava seus álbuns em segundo plano (em 1979 a banda lançaria a coletânea de A-sides e B-sides Singles Going Steady, que reunia todas essas gemas da gênese pop-punk).

Mas, ora, se ‘Another Music’ não reúne grandes sucessos (tem apenas um single, a ótima e grudenta “I Don’t Mind”), não foi responsável pelo êxito da banda e ainda soa abrasivo e emocionalmente confuso, por que raios damos à ele tanta importância?

Sem querer, Pete Shelley e cia asfaltaram todo um caminho, que serviu de atalho para todas as bandas pop-punk desde então. Com Spiral Scratches lançado de forma independente, acabaram por incentivar o DIY, a ideologia do faça você mesmo que permeia o punk rock até os dias de hoje. Além disso, os álbuns iniciais dos Buzzcocks (que saíram pela United Artists), juntamente com a coletânea de singles, servem como base para um revival de punk rock que aconteceu nos anos 90. Kurt Cobain reconheceu a importância das composições de Shelley, convidando um reformado Buzzcocks para acompanhar o Nirvana em sua última turnê (os Buzzcocks entraram em hiato em 1981, retornando apenas em 1993 com o álbum Trade Test Transmissions). Além disso, toda a ‘enganosa simplicidade’ de acordes dos Buzzcocks influenciou bandas pós-punk e do Britpop (Oasis, Cast e Blur mandam um salve).

A banda existe até hoje. Shelley faleceu em 2018, e o último álbum da banda é o excelente Sonics In The Soul (2022), com Steve Diggle assumindo os vocais e guitarras.

FICHA TÉCNICA

Ano: 1978

Gravadora: United Artists

Faixas: 11 

Tempo Total: 35:48

Produtor: Martin Rushent

Destaques: “I Don’t Mind”, “Fast Cars”, “You Tear Me Up”,I Need”

Pode agradar fãs de: punk rock, Sex Pistols, The Clash, Sham 69, britpop

Rodrigo Melão

Rodrigo “Melão” Camargo é pai da Victória, tutor da Padmé e casado com a Cibele, não necessariamente nessa ordem. Beatlemaníaco, Corinthiano, cozinheiro de urgências, ávido consumidor de música, filmes e séries. Às vezes um cara legal, às vezes letal. Escreve semanalmente no Instagram @prazeresplasticos. Escreve também para o site URGE (urgesite.com.br). Trabalha no setor de Telecomunicações há 25 anos, mas formou-se em Comunicação Social, talvez no intuito de manter acesa sua vontade de escrever sobre suas paixões.

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