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THE WHO – MY GENERATION – 58 ANOS

Você pode dizer que coisas parecidas ocorreram em 1965. Stones e Beatles estavam por ali cimentando suas reputações. Os Animals tinham um grande vocal, os Yardbirds eram incríveis e os Kinks também. A invasão britânica estava com tudo, redefinindo os rumos do rock and roll, salvando-o de um ostracismo desejado ardentemente pelo establishment e pavimentando o caminho para tudo o que viria depois.  

Mas não pode haver a menor dúvida de que o primeiro disco do The Who, “My Generation”, lançado em 03 de dezembro de 1965, foi uma tremenda turbinada no “movimento”, sendo considerado até hoje o LP mais feroz daquele ano.  Ou, conforme dito pelo crítico Mark Kemp para o “The Rolling Stone Guide Album”, de 2004, “Com sua mistura feroz de distorção suja (grungy distortion, no original, que termo apropriado…), baixo e percussão estrondosos e vocais brutais, ‘The Who Sings My Generation’ se tornou o modelo para grande parte do rock de garagem, heavy metal e punk subsequentes”.

Exagero? Jamais! E não é só isso. A banda, além de contar com excelentes músicos e um vocalista incansável, ainda trouxe inovações nos seus arranjos, tais como solos de baixo e bateria somente vistos até então em álbuns de jazz, jams sessions no meio do disco, distorções na guitarra inauditas, e tudo isso sem deixar de pagar seu tributo aos founding fathers do rock, fazendo referências várias ao som dos anos 50.  

Aliás, o disco abre com uma faixa de inegável inspiração nos primórdios do rock – “Out In The Streets”, com sua levada tribal, bem ao estilo Bo Diddley, só que inserindo uma bateria insana, corais e um falso solo de guitarra meio atonal.  

A segunda é um cover de James Brown. Típica baladona dos anos 50, a qual o ouvinte mais desavisado vai jurar que está sendo cantada por um cantor negro. É um dos truques do monstruoso vocalista Roger Daltrey. Moon, o baterista e Entwistle, o baixista, por incrível que pareça, se comportam e abrem espaço para os belos solos de Pete Townshend.  

A terceira música é a durona “The Good’s Gone”, com duração que ultrapassa os notáveis quatro minutos de duração. Um pouco mais de peso e poderia estar em qualquer disco de hard rock dos anos 70.  “La-la-la-Lies”, embora um tanto mais pop, tem os típicos ataques que o Who tanto exploraria nos anos seguintes e, ainda, o apetitoso piano de Nicky Hopkins.

Em “Much Too Much”, Daltrey dá aulas de canto, dinâmica e entonação. Jovens como Lou Reed e Iggy Pop devem ter varado madrugadas ouvindo esse tipo de interpretação.   

O Lado A fecha com aquele tipo de faixa que se torna maior que o próprio disco. “My Generation” não é uma música, é uma obra de arte, um divisor de águas, uma canção que dignifica a passagem da raça humana por esse planetinha ridículo. “larger than life” é o exato termo a ser usado.  

São tantas coisas para dizer, que a gente até se atrapalha. Daltrey aplica um falso tartamudeio no seu cantar, a música tem uma escala descendente deliciosa (como sempre são as escalas descendentes…), muda de tom, tem provavelmente o primeiro solo de baixo da história do rock, e talvez o melhor de todos os tempos, solo de bateria, uma coda caótica. A letra é icônica. Se nunca ouviu, ouça hoje ainda. 

O lado B abre com “The Kids Are Alright”, uma bela pop song que virou um dos clássicos do grupo.  A seguir, nova cover do Mr. Dynamite, “Please, Please, Please”. Se restava alguma dúvida sobre quem Daltrey teria como um de seus mestres, ela se dissipa. Moon destrói sua bateria no fim e em se tratando de The Who, isso nunca é mera figura de linguagem.  

“It’s Not True” é mais um típico exercício mod gestado por Townshend, colocando a banda para correr, com Hopkins novamente no piano. “I’m a Man” é um cover de Bo Diddley. Bluesão modal sobre o qual a banda improvisa, sem o menor medo dos exageros, desbravando estradas por onde grupos como o Greateful Dead e os Allman Brothers caminhariam pouco depois.

Em “A Legal Matter”, após um curto riff daqueles de deixar o queixo pendurado, Pete Townshend assume os vocais principais, em uma letra depreciativa sobre o casamento que hoje talvez fosse cancelada. Tudo bem gente! Pete tinha só 20 anos… e eram os anos 60.

Antes do fim, somos bombardeados pela poderosa jam “The Ox”, assinada por Townshend, Entwistle, Moon e Hopkins. Um verdadeiro assombro para a época. Nada igual havia sido feito até então, não no campo do rock.  

A banda assim deixava clara uma intenção – quase filosófica – de conversar com alguns elementos do passado, mas com o propósito de empurrar o rock para o futuro. Havia um método por trás de tudo, muito bem tramado e urdido, por quatro dos maiores músicos do nosso tempo.  Tudo isso misturado gerou um dos álbuns de estreia mais vigorosos e importantes da história do rock e deu o pontapé inicial à carreira de uma das bandas mais adoradas e respeitadas de todos os tempos.

Foto extraída do site: https://www.ondamusicale.it – sem créditos aparentes.  

Cristian Fetter

Cristian Fetter Mold é gaúcho mas mora em Brasília desde 1991. É advogado e professor na área de Direito de Família e Sucessões. Coleciona música em mídia física, desde os 12 anos de idade, especialmente Rock dos anos 50 a 90 e, em menor escala, Jazz dos anos 40 aos 70. É um dos criadores do Podcast "Prisioneiros do Rock" e às vezes se mete a formar bandas.

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