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Titãs – Encontro: Todos ao Mesmo Tempo Agora – Allianz Park, São Paulo, 17/06/2023

55 mil pessoas lotaram o Allianz Park por três dias, no último final de semana em São Paulo. Os Titãs estavam de volta em sua formação clássica, com Charles Gavin (bateria), Nando Reis (baixo e vocais), Paulo Miklos (vocais, saxofones, teclados, bandolins e o que mais derem para ele tocar), Arnaldo Antunes (vocais), além dos remanescentes “operários” Tony Bellotto (guitarras). Sergio Britto (vocais e teclados) e Branco Mello (vocais). A banda estava acompanhada do produtor, guitarrista e amigo Liminha (ex-Mutantes), além de ter contato com a presença da filha de Marcelo Fromer (guitarrista da banda, morto em 2001), Alice Fromer.

O nome da turnê é Encontro – Todos ao Mesmo Tempo Agora. E essa é a maior pista do repertório desta turnê: músicas que fizeram parte dos álbuns da banda com a formação clássica, do início dos anos 80, até 1991, último álbum em que a banda esteve, digamos, completa (com mais algumas surpresas pelo caminho).

A banda entrou no palco com “Diversão”. O som estava impecável, e isso é absolutamente louvável para um show dessas proporções. Foram alternando os vocalistas originais a cada música. Miklos deu lugar a Antunes em “Lugar Nenhum”, que deu lugar a Britto para “Desordem”, que cedeu espaço para Branco Mello mandar “Tô Cansado” e,  para proporcionar o primeiro momento de fato catártico da noite: somente uma banda do tamanho dos Titãs tem apoio incondicional dos fãs para manter um músico absolutamente sem voz nos planos de um show tão gigantesco. Branco passou por uma remoção de um câncer na garganta, e contou isso à plateia antes de “cantar”, com uma voz que soa como um sopro.

É neste momento que o fã mais atento descobre sobre do que se tratava aquele Encontro: uma celebração de vida. Uma celebração de amor.

A primeira de Reis é “Igreja”. Curiosamente, diferente do comportamento nos anos 80, Arnaldo Antunes permaneceu no palco durante sua execução!

Havia mais uma razão implícita nesse espetáculo: as 11, talvez 12 primeiras músicas do show são músicas absolutamente políticas. Se havia algum fã naquele estádio que não tivesse percebido as conotações políticas das letras dos Titãs até aquele momento, Nando Reis deixa tudo posto à mesa em “Nome Aos Bois”, atualizando a lista de canalhas para o Brasil de 2023.

O respiro vem com o set acústico. Necessário, haja vista que boa parte, senão a maior parte, dos que estavam no show conheceram os Titãs a partir do projeto Acústico MTV, ou talvez a partir de “Epitáfio”, uma das poucas canções que contrariam a ordem cronológica dos fatos para fazer parte do repertório. O fã antigo, mais roqueiro, mais político e mais ávido pelos hinos mordazes, apenas acompanhavam, boquiabertos, o espetáculo de luzes de celulares, iluminação de palco e do estádio, e total controle dos demais na plateia, por parte da banda.

É também no momento acústico que a filha de Marcelo Fromer sobe ao palco, para cantar “Toda Cor“. Alice Fromer, definitivamente, não é cantora com o mesmo talento de Miklos, por exemplo. Mas, antes de reclamar, lembremos que estávamos diante de uma celebração de vida, amor e amizade. Ainda que a garota tenha insistido no palco por mais tempo que o necessário, era a celebração o que importava. E, por isso, Rita Lee ganhou também uma homenagem, com a cover de “Ovelha Negra”.

Quando a banda retorna para os instrumentos plugados, mais sucessos absolutos: “Família”, “Go Back”, “É Preciso Saber Viver” (segunda  e desnecessária música que subverteu a ordem cronológica, mas absolutamente justificável pelo alcance com o público mais jovem), “Flores”, a punk “Polícia” e um pré-encerramento com “Bichos Escrotos”, berrada a plenos pulmões por um Allianz Park absolutamente em êxtase. Para o bis, a política “Miséria”, “Marvin” e o encerramento, com Miklos dizendo que “ali, a Pompéia, é a ‘quebrada dos Titãs’”, para emendar o primeiro hit da banda, “Sonífera Ilha”, pondo ponto final à catarse que foi o show. 

O que mais era comum ouvir nos bares no entorno, ou mesmo na pista do Allianz Parque, era que “os Titãs voltaram para ‘tomar o posto de maior banda do rock nacional”. Curioso.

Os Titãs sempre foram ousados. Digo mais, até o Acústico MTV, foram MUITO ousados.

Foram pop. Punk. Fizeram baladas de amor. Foram políticos. Foram pós-punk. Foram eletrônicos. E são eles os responsáveis pelo sucesso do formato Acústico MTV. 

Os Titãs seguem sendo ousados, ainda que a relevância que merecem tenha sido ocupada por alguma música efêmera de Tik Tok ou algo do tipo. Recentemente, por exemplo, lançaram uma ópera-rock de tema bastante atual.

O concerto no Allianz Park não foi nostálgico. Ora, todas essas músicas seguem sendo relevantes, coerentes e atuais, mesmo após tantas décadas.

O show teve, na verdade, outros propósitos. Serviu para nos mostrar que o rock nacional tem poderio, sim, para lotar estádios – por tres dias seguidos.

Serviu para mostrar que música e inteligência podem andar de mãos dadas com o apelo mais popular que se possa imaginar, e tudo bem que seja assim, não é preciso ser xiita.

Mas, acima de tudo, serviu como uma celebração de vida. De amizade e de vida.  

P.S.: Na saída do estádio, com as luzes acesas, e as pessoas em direção ao portão de saída, os alto falantes tocaram “Domingo” e “O Quê”, desprezadas em repertório por quaisquer razões cronológicas ou não. Se quisessem, temos certeza disso, ainda haveria um repertório de uma hora e meia de hits.

SETLIST

Diversão

Lugar Nenhum

Desordem

Tô Cansado

Igreja

Homem Primata

Estado Violência

O Pulso

Comida

Jesus Não Tem Dentes no País dos Banguelas

Nome Aos Bois

Eu Não Sei Fazer Música

Cabeça Dinossauro

Epitáfio

Cegos do Castelo

Pra Dizer Adeus

Toda Cor

Não Vou Me Adaptar

Ovelha Negra

Família

Go Back

É Preciso Saber Viver

32 Dentes

Flores

Televisão

Porrada

Polícia

AA-UU

Bichos Escrotos

Miséria

Marvin

Sonífera Ilha

Rodrigo Melão

Rodrigo “Melão” Camargo é pai da Victória, tutor da Padmé e casado com a Cibele, não necessariamente nessa ordem. Beatlemaníaco, Corinthiano, cozinheiro de urgências, ávido consumidor de música, filmes e séries. Às vezes um cara legal, às vezes letal. Escreve semanalmente no Instagram @prazeresplasticos. Escreve também para o site URGE (urgesite.com.br). Trabalha no setor de Telecomunicações há 25 anos, mas formou-se em Comunicação Social, talvez no intuito de manter acesa sua vontade de escrever sobre suas paixões.

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