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Tudo Ao Mesmo Tempo Agora: os Titãs em sua forma mais áspera e suja

Capa do álbum de 1991, Tudo Ao Mesmo Tempo Agora – WEA/Warner Music

Passado o frenesi provocado pela Turnê Encontro (cuja cobertura você confere AQUI e AQUI, no VoD), acho que já posso falar de um álbum dos Titãs de forma mais racional e sem pender para minhas predileções e emoções (contém ironia!).
De começo vacilante, os anos 80 foram extremamente intensos para os Titãs. Em 1989, quando lançaram e fizeram a tour do álbum Õ BLésq Blom, já eram a banda queridinha das rádios e da imprensa especializada. Em 1990, com o início da MTV Brasil, a banda ganhou premiações com os vídeos de Flores, além de todo sucesso do vídeo de Deus e o Diabo.
Eis que chegamos em 1991, o ano em que o rock voltou a encarar suas formas mais primitivas. O revival do punk, explorados pelo Grunge. O Metal, ganhando as massas com o Metallica. O hardcore nova iorquino. O shoegaze europeu. Tudo muito mais barulhentos, primitivos, o que não significa sem técnica, diga-se. 

Os Titãs, naquele ano, precisavam “expelir e exorcizar” demônios, e o fizeram partindo para uma forma primal de composição. Tudo Ao Mesmo Tempo Agora, sexto álbum da banda, lançado em 1991, é um álbum disruptivo em inúmeros aspectos na carreira da banda. 
A banda vinha desde 1986 contando com a produção de Liminha. Mas o produtor havia se mudado para os EUA, e as agendas de gravação não puderam ser conciliadas.A incompatibilidade de agendas, algo tão comum nos negócios, pareceu ter sido algo um pouco mais pesado para a relação entre banda e produtor, pois passaram tempos sem se falar, e esse  teria sido o primeiro ponto crítico na gravação.

O octeto decidiu, pela primeira vez, assumir a produção de um álbum. Longe do estúdio Nas Nuvens (de Liminha), a banda passou a ensaiar na casa de Marcelo Fromer (guitarrista), e, para a gravação, montaram um estúdio improvisado numa casa (na cidade de Cotia, precisamente no bairro da Granja Vianna), onde a banda resolveu fazer todo o processo criativo de forma conjunta (ainda que overdubs e vocais adicionais tenham sido colocados no Nas Nuvens, na pós produção). Os compositores da banda costumavam assinar suas composições e levavam ao grupo para os arranjos, e esse processo foi alterado para o álbum, quando passaram a compor e assinar juntos. Esse teria sido o segundo ponto crítico. A banda era conhecida por ter vários compositores e vocalistas. Ao assinar coletivamente, a mídia “perdeu a referência”, e passou a tatear quem teria sido o compositor da canção A ou B, gerando um certo desconforto entre mídia e banda – que, naquele momento, não ligava para isso.

Titãs, em frame do filme “A Vida Até Parece Uma Festa”, de Branco Mello

O processo criativo foi muito caótico e, para ajudar, uma equipe de produção filmava as sessões de gravações, para um especial que passaria na MTV naquele ano de lançamento. O programa está disponível pelo Youtube, e mostra as músicas do álbum durante a pré-produção. Numa espécie de pré-Big Brother (ou pós-Let It Be), a equipe captou parte da essência da produção caótica. Com Tudo ao Mesmo Tempo Agora os Titãs voltaram a pisar num terreno áspero, bruto, sujo e hostil, como em 1986 (com o pesado e histórico Cabeça Dinossauro). O álbum traz temáticas já exploradas pela banda anteriormente, como o amor, o ódio, o nonsense, o profano e os simbolismos religiosos, vida e morte; tudo com verniz esporrento e confrontador, agressivo.

O primeiro single foi “Saia de Mim”, um rock perigoso e envolvente, com um excelente riff de guitarra. Já de cara, Arnaldo Antunes berrava “Saia de mim vomitado, expelido, exorcizado, tudo o que está estagnado…”. Ora, o anúncio estava feito!
“Clitóris”, cantada por Paulo Miklos, provoca através de sexismo e símbolos religiosos. O que na época chocava, hoje, num mundo em que muitos cristãos são tão sujos quanto um absorvente usado, a música faz mais sentido. “Não É Por Não Falar” também ganhou as rádios. Um ótimo riff, uma ótima canção, um ótimo solo de gaita – que não está creditado a ninguém na ficha técnica do álbum, mas possivelmente é executado por Miklos.

O malho da crítica deveu-se, especialmente, à romântico-escatológica  “Isso Para Mim É Perfume”, cantada por Nando Reis, cuja letra, segundo o artista, explora o mais extremo dos atos apaixonados. Sugiro ao leitor procurar a música! A música tem um tempo quebrado, nada convencional, e essa letra provocativa. Aqui, o mais comum a se ler na época era que os Titãs haviam exagerado.Sofrendo do mesmo mal estava a engraçadíssima “Flat, Cemitério, Apartamento”, cantada por Branco Mello, que sugeria bizarrices através de interrogações, como pigmentos para albinos, balas de cimento e calcinhas com corrimento, temas que a nossa evolução social certamente fariam esbarrar no politicamente correto! A intenção, no entanto, era mesmo provocar: o verso “…E se o Adolpho Lindenberg entrasse no ramo dos flat cemitério apartamento?” provoca o personagem paulista, burguês, e fundador da nojenta TFP.

Essas duas canções transformaram o álbum no renegado da trajetória da banda. Não era o peso e a aspereza que incomodava – os Titãs, em 1993, lançaram um álbum ainda mais sujo e pesado, que foi muito bem aceito. Era a temática, que chocava o conservadorismo. A banda que havia conquistado toda uma sociedade com Comida, Marvin e Flores, agora falava palavrões, que chocavam até mesmo os ditos progressistas da época.

Infelizmente, esses perdem as ótimas músicas escondidas nesse álbum, que estão dentre as minhas favoritas da banda: o hardcore “Filantrópico”, que antecipa o que Branco Mello e Sergio Britto fariam, tempos depois, no Kleiderman; a lindíssima e existencialista “Já”, última grande contribuição de Arnaldo Antunes para a banda; “Agora”, cantada por Miklos, e que promove uma reflexão sobre a morte (existe uma versão linda da Maria Bethânia para essa música, em uma mescla com “Debaixo D’água”, onde “Agora” vira uma espécie de rap. Emocionante!); além das dançantes “Se Você Está Aqui” e a faixa-título, cheias de wah-wah e letras nonsense.

Tudo Ao Mesmo Tempo Agora é, ao mesmo tempo, um disco caótico, urgente, incômodo, e por isso mesmo é um álbum que requer uma redescoberta e uma audição mais atenta e sem aquela exigência austera. 

É a banda operando o caos de compor e registrar tudo ao mesmo tempo. Foi o último trabalho de Arnaldo Antunes como membro efetivo da banda.

FICHA TÉCNICA
Ano: 1991
Gravadora: WEA/Warner
Faixas: 15
Tempo Total: 38:58
Produtor: Titãs
Destaques: “Saia De Mim”, “Agora”, “Já”,Não é Por Não Falar”, “Filantrópico”
Pode agradar fãs de: BRock, Punk rock, Pós-punk, rock nacional, rock garageiro

Fonte: site Célula Pop

Rodrigo Melão

Rodrigo “Melão” Camargo é pai da Victória, tutor da Padmé e casado com a Cibele, não necessariamente nessa ordem. Beatlemaníaco, Corinthiano, cozinheiro de urgências, ávido consumidor de música, filmes e séries. Às vezes um cara legal, às vezes letal. Escreve semanalmente no Instagram @prazeresplasticos. Escreve também para o site URGE (urgesite.com.br). Trabalha no setor de Telecomunicações há 25 anos, mas formou-se em Comunicação Social, talvez no intuito de manter acesa sua vontade de escrever sobre suas paixões.

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