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Unknown Pleasures, 44 anos

Como num balé celeste, uma estrela moribunda realiza sua última dança. Ao esgotar seu brilho incandescente, em metamorfose se desenha como um novo protagonista no palco do cosmos.

Essa dança de morte e renascimento se traduz em pulsos cadenciados, como notas musicais que ressoam pelo universo. São sussurros que nos dão a lembrança da estrela que um dia brilhou.

A capa de Unknown Pleasures, o álbum de estreia do Joy Division, eternizou as ondas de rádio capturadas dessa estrela em agonia. Um Pulsar, o primeiro a ser assim descoberto.

No álbum, temos canções onde o som e o silêncio ganham igual peso e relevância. Vidros se quebram, portas se fecham. Músicas começam no vazio e por 20, 30 segundos nada acontece. Unknown Pleasures é sombrio e hipnótico. E também possui um espaço sonoro tridimensional. O som é concebido com profundidade, vindo de camadas e direções diferentes.

A produção de Martin Hannett dá ao disco um som inovador e atemporal. O Joy Division entrou em estúdio como uma banda sem traços distintivos, buscando identidade. Saiu das gravações como figura central do pós-punk. E o álbum, como uma das obras mais significativas e reverenciadas da história do rock.

E graças ao trabalho quase insano de Hannett. Ele explorou o potencial do estúdio, experimentando com efeitos, sobreposições e técnicas de mixagem incomuns. Foi além das convenções do rock tradicional, buscando sons e timbres que transcendessem as expectativas.

A obsessão de Hannett criou a estética do som da banda como conhecemos, desde a separação dos instrumentos até a manipulação de frequências e espaços. Sua busca pela excelência resultou em um som claro, nítido e imersivo, onde cada elemento musical tinha seu lugar no arranjo. Como ninguém, ele entendeu Ian Curtis e sua melancolia raivosa e tensa.

Claro que nada disso seria possível sem as canções em si. O baixo pulsante de Peter Hook, combinado com a guitarra enérgica de Bernard Sumner e a bateria precisa de Stephen Morris, criando um alicerce musical poderoso. A interação entre os instrumentos da banda nunca mais foi a mesma. Nem no New Order. Faixas com riffs de guitarra ascendente de Bernard Sumner tocados contra riffs de baixo descendente de Peter Hook. Uso ainda sutil de sintetizadores e bateria eletrônica, muito mais para criar texturas e efeitos dissonantes. Morris, ao longo de todo o disco, imprime ritmo intenso e pulsante às músicas mais aceleradas, passando sensação de urgência, ou mantras percursivos, precisos e intensos nas faixas mais lentas.

E à frente da banda, Ian Curtis. Sua angústia lacerante na voz. Suas letras. Um mergulho no mais profundo da psique humana. Solidão, desespero e alienação. Uma constante sensação de desconexão com o mundo ao redor e um desejo de encontrar estabilidade em meio ao caos. Versos que expressam um esgotamento emocional, uma sensação de estar sobrecarregado e incapaz de encontrar sentido ou prazer nas experiências vividas.

Unknown Pleasures. Joy Division. Feliz aniversário.

Filipe Silva

Metade do Prisioneiros do Rock

3 thoughts on “Unknown Pleasures, 44 anos

  • Belo texto para um grande e influente disco. Foi um dos primeiros vinis que comprei para a minha discografia e, desde lá, se tornou um dos álbuns da vida.

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