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Write About Love (2010): o reencontro do Belle And Sebastian com seu melhor momento

Capa de Write About Love, de 2010.

Entre 1996 e 2000, os escoceses do Belle And Sebastian tinham lançado 4 ótimos álbuns (dentre eles a obra-prima e segundo álbum da banda, “If You’re Feeling Sinister”, de 1996), alguns singles (como os excepcionais “Lazy Line Painter Jane”, de 1997;  e “This Is Just A Modern Rock Song”, de 1998).

A crítica, sempre ela, no entanto, já estava em viés de críticas para o som barroco, simples, delicado, poético e agridoce da banda. O quarto álbum, “Fold Your Hands, Child, You Walk Like a Peasant (2000)”, havia sido muito criticado pela mídia especializada, num tempo em que voltavam as atenções a um rock mais garageiro e guitarrento de bandas como Strokes, Franz Ferdinand e Kaiser Chiefs. Em pouco tempo, a banda que havia suprido as necessidades emocionais que um dia os Smiths haviam medicado, parecia ter perdido efeito.

O Belle And Sebastian nunca manteve, até o início dos anos 2000, uma relação de intimidade com a imprensa. Talvez por não perceberem a ascendência que tiveram em apenas quatro anos, talvez por uma mera postura blasé e independente – tipicamente anos 90. “Fold Your Hands…” também trazia uma característica: Stuart Murdoch deixava de ser o principal compositor para tornar a banda um tanto mais colaborativa, o que acabou gerando alguns momentos menores, comparados aos outros álbuns – querosene para a imprensa.

Legal Man”, single de 2000, apresentava a banda tocando um pop psicodélico sessentista, guitarras fuzz e características ainda não exploradas na delicada sonoridade dos indie popers escoceses. Foi um sucesso, levou a banda para o Top Of The Pops e chegou até o 14ª lugar da parada de singles britânica – mérito para um lançamento absolutamente independente. Mas a mudança de direção pareceu render, também, algumas diferenças na banda. Stuart David (baixista) e Isobel Campbell (vocais, cellos e guitarras) deixaram a banda para seus projetos solos (Looper e The Gentle Waves, respectivamente). A banda gravou uma trilha sonora ultra melancólica (até para os padrões Belle And Sebastian) para o filme Storytelling, do diretor Todd Solondz, de 2002. Os singles “felizes” e a trilha “melancólica” não pareciam em congruência.

A banda deixou o selo independente Jeepster em 2002 para assinar com a (também independente, mas um tantinho maior, digamos) Rough Trade. De casa nova, ares novos, caras novas integrando a banda (Bobby Kildea, guitarras e baixo), a banda passa a entregar discos que condensam o pop barroco dos álbuns iniciais com o pop sessentista dos singles da virada do século. O resultado está nos álbuns do período da banda na Rough Trade: “Dear Catastrophe Waitress (2003)”, “The Life Pursuit (2006)” e o meu objeto de resenha hoje, “Write About Love (2010)”.

Essa fase na Rough Trade simbolizou uma mudança no som do Belle and Sebastian, deixando latente uma sonoridade com influência de um tipo de pop mais alegre e, porque não, suingado, a lá Motown sessentista. A produção ficou com Tony Hoffer, que já havia produzido o álbum anterior da banda (“The Life Pursuit”). Hoffer tem em sua ficha corrida álbuns primorosos do início deste século, do qual esse escriba destaca “Life on Other Planets”, do Supergrass (2002); “So Much For The City”, do The Thrills (2003) e “Hourglass”, do (vocalista do Depeche Mode) Dave Gahan (2007), além desses trabalhos primorosos com o Belle And Sebastian.
Além disso, Murdoch estava de volta às composições e direções artísticas. São suas as fotos que compõem a belíssima capa, que inclui uma pequena “crônica cotidiana” de Murdoch, agridoce e cinzenta, falando sobre um dia qualquer da produção do álbum sob sua ótica sonhadora.

Aliás, Murdoch é craque em criar esses quase roteiros em suas letras, com histórias de amores tímidos, muitas vezes mal resolvidos, ou, ainda que resolvidos, religiosamente cotidianos. “Write About Love” resgata a sagacidade, a ironia e a sensibilidade desse autor em contar histórias que poderiam ser a sua e a minha e, quem sabe, não são.
É lugar comum em inúmeras críticas falarem mal da participação de Norah Jones em “Little Lou, Ugly Jack, Prophet John”. Injusto, porém. Jones e Murdoch fazem um excepcional dueto, numa daquelas canções de amores fragmentados. Ora, quem critica os versos “Você me odeia na luz? Tomou um susto quando me viu de onde estava deitada?” é porque nunca sentiu insegurança na vida (e, se for o caso, por favor procure ajuda psicológica).

Murdoch no comando não significa B&S menos colaborativo, pois. “I Didn’t See It Coming”, lindíssima faixa que abre o álbum, tem vocais principais de Sarah Martin, e uma discreta, porém certeira, participação de Murdoch no final. A “pop francesa” faixa-título tem outra participação especial, da atriz britânica Carey Mulligan, numa ótima e divertida interpretação, numa das melhores faixas do álbum.

Aliás, a melhor faixa do álbum, na opinião deste escriba, é “I Want The World To Stop”. É uma daquelas pepitas pop perfeitas, com absolutamente tudo no lugar certo, Quarta música do álbum, majestosamente entre “Calculating Bimbo” e a ja citada “Little Lou, Ugly Jack, Prophet John”, a canção é daquelas que certamente permanecerá na sua mente por muitos e muitos dias.
E se a mudança de sonoridade plantar um pouco de dúvida no fã mais ardoroso dos dias iniciais da banda, visitem “The Ghost Of Rockschool” e a delicadíssima “Read The Blessed Pages”, e atrevam-se a negar que caberiam fácil em “Sinister” ou em “Arab Strap”.

Write About Love é uma delícia de álbum, perfeita para todo ser sensivelmente desajustado que habita nosso planeta. Recomenda-se ouvir “com os calcanhares para cima, relaxado numa poltrona, com os olhos semicerrados… As cordas e trompas irão te enganar e te contorcer. E farão maravilhas pela sua ressaca!

Assim disse Murdoch. 

Amém.

FICHA TÉCNICA

Ano: 2010
Gravadora: Rough Trade
Faixas: 11
Tempo Total: 43:15
Produtor: Tony Hoffer
Destaques: “I Want The World To Stop”, “I Didn’t See It Coming”,”LittleLou, Ugly Jack, Prophet John”,”The Blessed Pages”
Pode agradar fãs de: indie rock, lo-fi, pop barroco, folk, pop rock anos 60

Rodrigo Melão

Rodrigo “Melão” Camargo é pai da Victória, tutor da Padmé e casado com a Cibele, não necessariamente nessa ordem. Beatlemaníaco, Corinthiano, cozinheiro de urgências, ávido consumidor de música, filmes e séries. Às vezes um cara legal, às vezes letal. Escreve semanalmente no Instagram @prazeresplasticos. Escreve também para o site URGE (urgesite.com.br). Trabalha no setor de Telecomunicações há 25 anos, mas formou-se em Comunicação Social, talvez no intuito de manter acesa sua vontade de escrever sobre suas paixões.

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